Silvio, o vendedor de sonhos
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Silvio, o vendedor de sonhos

O filme tem como personagem o megaempresário Silvio Berlusconi, populista de direita que dominou a cena política italiana por duas décadas

Luiz Zanin Oricchio

10 de agosto de 2019 | 12h48

Toni Servillo (no centro): atuação impecável como Silvio Berlusconi

Hoje, a 81/2 – Festa do Cinema Italiano apresenta seu filme mais polêmico, Silvio e os Outros, de Paolo Sorrentino. Silvio é Silvio Berlusconi, empresário que dominou a cena política italiana por duas décadas, sendo primeiro-ministro por quatro vezes, com interrupções, de 1994 a 2011. Dono do Milan e do complexo midiático Mediaset, Berlusconi é uma espécie de protótipo de populista de direita, modelo de Trump e Bolsonaro. 

Na Itália, o filme chamou-se simplesmente Loro (Eles) e foi dividido em duas partes. Na versão apresentada no Brasil é um filme único, de 157 minutos. Passa hoje, sábado às 21h, e segunda, às 18h, no Espaço Itaú de Cinema, na rua Augusta. 

Na Itália, foi recebido com certa reserva. Talvez esperassem obra mais contundente de um cineasta tido como o melhor de sua geração, vencedor de um Oscar por A Grande Beleza e adepto de perfis políticos. De fato, Silvio e os Outros não é o primeiro filme de Sorrentino a ter como protagonista uma figura da república. Seu Il Divo foca-se sobre a também “controversa” figura de Giulio Andreotti, outro capo da política italiana, famoso por seu perfil maquiavélico, longa duração na instável cena política peninsular e ligações perigosas com a Máfia.

O elo entre Il Divo e Silvio e os Outros é o fato de seus personagens principais serem interpretados pelo ator fetiche de Sorrentino, Toni Servillo. Ator brilhante, de alto poder mimético, Servillo parece entrar na pele dos personagens que interpreta. E lhes dá várias camadas de complexidade humana, o que às vezes desagrada quem prefere pinturas bidimensionais, sem profundidade de campo. Em especial, quando são figuras profundamente polarizadas em sua projeção pública. 

Berlusconi é um desses casos. Fascina seus adeptos, provoca repulsa e vergonha em seus opositores. Muito se falou que ele representaria uma espécie de “tipo ideal” do italiano. Mas, na verdade, é apenas uma caricatura, que exacerba clichês de uma certa “italianidade” – é mulherengo, desbocado, cínico e bem-sucedido. 

Berlusconi, o próprio, não deixa de se comportar como essa caricatura. Quando lhe perguntaram o que havia achado das sequências de orgias em  Silvio e Outros, das suas festas “bunga bunga”, lamentou que a produção do filme não tenha solicitado sua própria casa para a filmagem. “Teria cedido com prazer”, disse. Há poucos meses, uma manifestante, com os seios de fora, o interpelou em público e lhe disse que ele era um homem do passado. Quando lhe perguntaram o que achava desse tipo de protesto, Berlusconi foi galante e elogiou a moça: “Una bella ragazza”. E, sobre ser um homem do passado, admitiu que a garota tinha razão. Bom, comparadas às grosserias públicas de Trump e Bolsonaro, as tiradas de Silvio até que soam engraçadas. Pelo menos isso. 

Mas, graça à parte, a verdade é que Berlusconi teve uma presença destrutiva sobre a política italiana. Como Bolsonaro, ele nasce no vácuo criado por operações judiciais que demoliram o sistema político de seus países. Mãos Limpas na Itália, Lava-Jato no Brasil. Após essas bombas de nêutrons, parte significativa da população entendeu que era preciso eleger gente de “fora do sistema corrupto da política”. Berlusconi e Bolsonaro. (Cabe lembrar que o ministro da Justiça, o ex-juiz Sérgio Moro, é fã de carteirinha da operação Mani Pulite, tendo até mesmo escrito um artigo a respeito).  

Retratar pessoas assim é sempre difícil. Como Berlusconi é uma caricatura ambulante, pintá-lo como caricatura talvez fosse mais fácil. E inócuo. Sorrentino tenta escavar mais fundo. E procura ver no político o homem que envelhece. E que tenta se reconciliar com a esposa, já farta de suas traições. Patético, o Silvio de Sorrentino é obrigado a aceitar o “não” de uma jovem prostituta que se recusa a ir para a cama com ele porque tinha o mesmo cheiro do avô da moça. Tenta reencontrar sua vocação inicial, a de empreendedor imobiliário, o grande vendedor de sonhos individuais que depois conquistou todo um país como seu campo de ação. Populistas vendem sonhos e entregam pesadelos. 

Ver esses personagens como seres humanos, contraditórios e, no fim, sujeitos à decadência como comuns mortais, não significa desculpá-los por seus malfeitos, mas compreendê-los. E, talvez, alargar a compreensão sobre o fascínio que exercem sobre parcela significativa da sociedade. A arte é, entre outras coisas, um instrumento de conhecimento – em particular daquilo que parece incompreensível. 

Mas, muitas vezes, o artista é acusado de “humanizar” demais esses tipos ou mesmo passar a mão em suas cabeças de tiranetes. Um filósofo, Renato Janine Ribeiro, outro dia fez a esse respeito uma analogia que me parece perfeita: o oncologista que tenta compreender a doença para melhor combatê-la não pode ser chamado de cúmplice do câncer. 

   

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