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Sganzerla – um artista para o milênio

Luiz Zanin Oricchio

08 de junho de 2010 | 12h28

Talvez uma simples retrospectiva de filmes não fizesse mesmo justiça a Rogério Sganzerla. Menino prodígio como escritor, crítico do jornal O Estado de S. Paulo com 17 anos (por indicação de Décio de Almeida Prado), aos 21 botou na praça um filme que virou de cabeça para baixo o cinema brasileiro daquele tempo – O Bandido da Luz Vermelha. Era 1968, e o filme expressava o desespero político da época. Detalhe: foi feito antes do AI-5, sendo portanto premonitório. Desde então, Sganzerla viveu uma vida provocativa, sempre antenado com as vanguardas e tendo como profissão de fé o cinema de invenção. Brigou com o Cinema Novo e fechou com Orson Welles, uma de suas referências maiores. Tanto assim que dirigiu nada menos que uma tetralogia em torno do mestre norte-americano de Cidadão Kane. Rogério começou muito cedo e também morreu antes da hora, indo-se aos 57 anos, em 2004. Sim, Rogério Sganzerla, ser múltiplo, merecia mais do que uma retrospectiva. Merecia uma Ocupação, que é o nome que se dá a esse evento multimídia que começa hoje para convidados no Itaúcultural e abre amanhã para o público.

Em que consiste essa Ocupação, que tem como curador o também cineasta Joel Pizzini? Numa aproximação multimídia ao universo do artista, a começar pela noite de abertura que terá a música de Lanny Gordin e presença do coletivo de Vjs Embolex. Gordin, guitarrista famoso na Sâo Paulo dos anos 1960, aparece num dos filmes de Rogério. Os dois têm tudo a ver. Além disso, une-se, metonimicamente, a outra das referências permanentes do cineasta – o guitarrista norte-americano Jimmi Hendrix, a quem Rogério também dedicou um filme e sua admiração de toda a vida.

As aproximações prosseguem pela exibição de uma memoriabilia sganzerliana, composta de manuscritos, roteiros (filmado e inéditos), objetos de uso pessoal com sua máquina de escrever. Acervo obtido com a família: a viúva Helena Ignez e as filhas do casal, as atrizes Sinai e Djin.  Rogério, nesse particular, era como Glauber Rocha, outro escritor compulsivo. Ao morrer, ambos deixaram um acervo incrível de material impresso, ainda por serem catalogados. Parte dessa herança sganzerliana estará exposta. Mas a preocupação da curadoria é que a mostra não tivesse caráter museológico, pois nada menos aparentado à personalidade de Rogério do que um museu. Assim, haverá um espaço com projeção de imagens para expor os eixos principais da visão de mundo de Sganzerla: além de Welles e Hendrix, Oswald de Andrade e Noel Rosa. Também estará disponível ao público uma “guitarra interativa”, que edita imagens dos filmes de Sganzerla (inclusive o raro Mudança de Hendrix) à medida em que o participante toca as notas. É ver para crer.

Em meio a tanto auê, sim: há os filmes. E, como diria um cinéfilo inveterado, aqui chegamos ao que de fato interessa, ao “x” da questão. Porque Rogério poderia ser tudo o que foi, rapaz precoce e boa pinta, cabeça brilhante e jeitão de hippie dos anos 1970, casado com mulher bonita e dando entrevistas radicais ao Pasquim; poderia ser tudo isso e não ser nada, não fossem seus filmes ou, pelo menos, alguns deles em especial. A vantagem da mostra está em programar tudo, literalmente tudo o que saiu da cabeça cinematográfica de Rogério, inclusive os trechos disponíveis da obra perdida Carnaval na Lama (leia box). O que, mais uma vez, vai permitir uma reavaliação do artista, seis anos depois de sua morte. Reavaliação que poderá ser ainda mais densa pelo nível dos debates programados. Nomes como Julio Bressane, Bill Krohn, Helena Ignez e Ismail Xavier, entre outros, estarão por aqui para discutir essa obra multifacetada e muitas vezes enigmática.

Por exemplo, é interessante observar em que medida a obra de Rogério fascina as gerações mais jovens, que não eram sequer nascidas quando ele surgia para o cinema com O Bandido da Luz Vermelha e Mulher de Todos. Será apenas efeito do eterno ar de rebeldia, que sempre seduz a quem é jovem (em outro âmbito, Che será um signo para sempre, por exemplo)? Ou refere-se à maneira como Rogério incorporou os elementos pop do seu tempo numa espécie de X-Tudo cinematográfico como é , por exemplo, O Bandido da Luz Vemelha, paródia de filme noir e comédia, faroeste do Terceiro Mundo, como ele o definia, uma maneira de falar do sufoco apelando não para a consciência da alienação, ou outros babados marxistas, mas para o escracho puro e simples? Mistério. Ou o segredo estaria na concepção rítimica dos seus filmes, da maneira como organiza os planos e os monta, ele que sempre foi cinéfilo, antes de ser crítico e cineasta? Porque há sempre algo de rítmico nos filmes desse diretor que gostava de citar a definição de Abel Gance: “o cinema é a música da luz.”

De qualquer forma, Joel Pizzini pega carona na definição do cineasta e ex-crítico dos Cahiers du Cinéma, Bill Krohn, para quem “a obra de Rogério Sganzerla é para o século 21”. Quer dizer, uma obra para o futuro, pois antes que se falasse em pós-modernismo e outros ismos, ela já imergia na geleia geral contemporânea e incorporava diversas linguagem à do cinema, como o rádio, os quadrinhos, a música popular, etc. Ao mesmo tempo, bebia no que de melhor a arte cinematográfica oferecia, Orson Welles acima de tudo, mas não a colocava num altar em separado de outras referências, como as de Godard a José Mojica Marins, o Zé do Caixão. Tudo era válido e tudo era material para entrar nessa  dança refinada do cinema, do criminoso do momento (João Acácio, o Bandido da Luz Vermelha da vida real) a um comediante de TV famoso, Pagano Sobrinho, para interpretar um político corrupto.

Rogério Sganzerla era o talentoso cozinheiro de todas essas incongruências. Sempre achou o ponto em suas receitas? Eis aí o outro “x” do problema, para falar como seu querido Noel Rosa. Há quem ache que tudo é bom. Esse é um dos problemas da noção de “autor”. Se você ama o autor, ama em conjunto toda a sua obra, como se tudo se nivelasse, por cima. E sabemos que nem sempre é assim, que alguns momentos geniais podem se alternar com outros menos inspirados. Ver essa filmografia em conjunto e perspectiva é uma rara oportunidade para separar o que pode ser mesmo conservado como uma obra para o século 21 e o que permanece, no máximo, como valioso documento de época.

 Currículo Vitae: Rogério Sganzerla nasceu em 4 de maio de 1946 em Joaçaba, no interior de Santa Catarina. Adolescente, mudou-se para São Paulo, onde começou a escrever críticas de cinema no Suplemento Literário do Estadão quando tinha 17 anos. Em 1967 estreia na direção com o curta Documentário. No ano seguinte lança O Bandido da Luz Vermelha, seu filme mais influente, indicado pela Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade. Com ele, Sganzerla torna-se um expoente do cinema de invenção brasileiro e, nessa linha, dirige vários outros filmes como Mulher de Todos, Abismu, Sem Essa Aranha, etc. Mantém diálogo constante com a obra de Orson Welles, cineasta que se torna sua grande referência. Dirige uma tetralogia sobre Welles em sua passagem pelo Brasil, incluindo seu último filme, O Signo do Caos, de 2003. Rogério morre no ano seguinte, com 57 anos, de um tumor no cérebro.

O filme perdido – Carnaval na Lama

Na programação, consta a exibição do material bruto de Carnaval na Lama, o filme desaparecido de Sganzerla. O negativo do filme encontra-se na Cinemateca Brasileira, em estado de algo grau de deterioração. A única cópia – chamada de “cópia de preservação – encontrava-se na Cinemateca do Mam, no Rio, até ser emprestada em 1992 para uma mostra de cinema brasileiro no museu francês Jeu de Paume, em Paris. Nunca voltou. Questionada, a curadora da mostra, Catherine David, disse que havia expedido a cópia de volta ao Brasil. Nunca chegou. Especula-se que a cópia pode ter ido parar na Cinematéque Française, mas a instituição nega que a tenha em seu acervo. A obra foi filmada em vários suportes – super-8, 16mm e 35 mm – em São Paulo e Rio. As filmagens prosseguiram depois em Nova York e incluem Jorge Mautner e Hélio Oiticica no elenco. Carnaval na Lama, ou Betty Bomba, como também é conhecido, ficou pronto em 1970, mas em 1972 Rogério remontou o material. A família tenta agora uma iniciativa junto com o Ministério da Cultura para que a cópia seja procurada na França. 

O casamento e colaboração com Helena Ignez

Antes de se unir a Rogério Sganzerla, a atriz baiana Helena Ignez foi casada com Glauber Rocha (com quem teve uma filha, Paloma) e Julio Bressane. Principal papel feminino em O Bandido da Luz Vermelha, a prostituta Janet Jane, Helena entrou de vez na vida de Rogério. Participou em vários dos seus filmes, e teve com ele as filhas Sinai e Djin, ambas também atrizes. Após a morte do marido, Helena dirigiu o roteiro por ele deixado da continuação do seu filme mais famoso. Luz nas Trevas está pronto, tendo Ney Latorraca no papel do Bandido, que teve Paulo Villaça no primeiro filme.

(Correção posterior: é Ney Matogrosso e não Ney Latorraca)

Livros

No quadro de recuperação da obra de Rogério Sganzerla, não poderia faltar a edição de seus textos críticos. Afinal, como vários dos seus ilustres colegas (como Glauber Rocha, Jean-Luc Godard e François Truffaut), Sganzerla também começou por escrever sobre cinema, antes de fazer cinema. Seus textos serão editados em dois volumes – um consagrado à sua colaboração com o Estado, quando o editor do Suplemento Literário era o crítico Décio de Almeida Prado, e outro, com os texto escritos para a Folha de S. Paulo.

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