Sex and the City: a caretice tá na cara…
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Sex and the City: a caretice tá na cara…

Luiz Zanin Oricchio

28 de maio de 2010 | 09h52

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Sex and the City 2 começa com um matrimônio gay e depois passa pelo Oriente Médio, antes de voltar ao seu habitat, Manhattan. Cumpre assim, a saga da aventura, da viagem, do estranhamento e do retorno ao hábito, comum aos roteiros de Hollywood, baseados no mito do herói descrito por James Campbell.

Aqui, as heroínas são as manjadíssimas Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker), Charlotte York (Kristin Davis), Miranda Hobbes (Cynthia Nixon) e Samantha Jones (Kim Catrall), apresentadas na série de TV que rolou de 1998 a 2004 e fez sua primeira aparição no cinema em 2008. As histórias variam, mas alguns pontos comuns permanecem. Basicamente, os dilemas da mulher moderna, dividida entre a família e o trabalho, entre a segurança monogâmica e as tentações da carne. Não por acaso, a trama nasce em Nova York, protótipo da cidade das infinitas possibilidades. Há de tudo lá, emprego, desafios, festa, cultura, informação frenética, vida noturna, sexo.

Esse mundo, que realiza a fantasia humana da ausência de limites, é também o que propõe a dose maior de angústia. Quando nos defrontamos com a infinita possibilidade de realização, sentimo-nos culpados se não a concretizamos. Ou se, pelo menos, não tentamos concretizar tudo o que se nos oferece. Isso atinge a todas as esferas da vida, mas, em particular, a dos relacionamentos – que, com o fim das utopias sociais, vira a grande questão urbanóide dos anos 1990 e 2000.

Daí que as angústias são colocadas (muitas vezes de forma cômica) nas personagens de Sex and the City e nos impedimentos que sentem para sua autorrealização plena. Carrie experimenta um esfriamento no casamento idealizado, em especial quando o maridão compra uma TV de tela plana para assistir no quarto do casal. Charlotte paga o preço da família que quis ter, ao se sentir atormentada por duas filhas pequenas e hiperativas. O problema de Miranda é na esfera da realização profissional, com um chefe que não a leva a sério e sequer a escuta. E o da fogosa Samantha, ideóloga pan-sexualista do grupo, é com a chegada da menopausa, que ela tenta contornar com cremes e hormônios.

Daí também a estratégia narrativa, que desloca as amigas da cosmopolita Nova York para uma semana em Abu Dhabi, a convite de um sheik e com todas as despesas pagas. Primeira classe no avião, hotel de luxo, mordomias mil, exotismo – nada disso disfarça o fato de que vieram da cidade das possibilidades infinitas a uma terra de possibilidades bem restritas. Ainda mais se você pertence ao gênero feminino. A estratégia narrativa permite não apenas fornecer algumas peripécias das amigas (sob a forma do choque cultural) como comparar desfavoravelmente o resto do mundo (em especial o mundo árabe) aos Estados Unidos – o que é uma operação ideológica bastante comum no cinemão mainstream.

Resta que as soluções encontradas – a acomodação ao matrimônio, à família e ao emprego – fazem de Sex and the City um termômetro perfeito da moral contemporânea: careta e conservadora, sob o verniz libertário, fashion e moderninho. No fundo, é tudo tão antigo… Do ideal do mundo sem limites, cai-se numa realidade para lá de limitada, regressiva mesmo. Não por acaso, começa-se pela cerimônia do casamento gay. A união que deveria ser a afirmação da individualidade vê-se obrigada a pedir a benção e usar o cerimonial da sociedade que no fundo a repudia.

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