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Serras da Desordem

Luiz Zanin Oricchio

27 de março de 2008 | 18h58

Há muitas maneiras de “contar uma história” e Andrea Tonacci escolheu uma das mais originais. Se bem que, aqui, a expressão “contar história” tenha de ser matizada e desdobrada. O diretor escala os personagens reais para (re)viver o que passaram anos atrás. Assim fazendo, traz não apenas um relato factual, mas já uma reinterpretação da história, pois reconstruída em momentos diferentes do tempo.

O fato inicial é de uma trágica banalidade no Brasil – o massacre de uma tribo indígena por brancos que cobiçam suas terras e o que elas contêm. Árvores, metais, o que for. Quem escapa da matança é o índio Carapiru, que se torna nômade e perambula pela mata durante dez anos. Quando foi encontrado, em 1987, estava a 2 mil quilômetros do lugar onde sua família foi dizimada. Carapiru encena a si mesmo, em suas andanças pela floresta e contato com brancos que não falam a sua língua. É uma experiência de estranhamento radical.

E quem poderia encenar Carapiru a não ser ele mesmo? Ninguém se coloca no lugar de ninguém, e uma cultura não “lê” a outra senão com os olhos do preconceito. Tudo o que se pode fazer é reconhecer o mistério do Outro e instalar-se na posição de simpatia em relação a ele. Colocar as emoções em sintonia, pois isso é o que quer dizer simpatia. A humanidade é una e diversa, e esse é o maior milagre de todos.

Nesse sentido, o ítalo-brasileiro Andrea Tonacci não tenta ser o índio que ele obviamente não é. Mas procura colocar-se nesse ponto de interseção entre duas culturas, que permite passar de uma a outra, sendo ambas irredutíveis. Por isso, não se traduz o que fala Carapiru em “tupi antigo”; suas palavras são apenas significantes aos nossos ouvidos. E o tempo dos brancos, a bela passagem de dez anos, construída com imagens de arquivo ou de outros filmes, também corre paralela ao índio internado na mata.

O encontro entre esses dois universos separados teima em se fazer. Às vezes no modo trágico; outras, no registro da ternura. Serras da Desordem o demonstra de maneira estupenda.

(Caderno 2, 27/3/08)

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