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Será que eu fui vizinho do Milton Hatoum?

Luiz Zanin Oricchio

20 de abril de 2009 | 12h43

Sexta-feira passada, Milton Hatoum escreveu uma bela crônica no Caderno 2. Bom, dizer isso é até redundante, pois, com pouco tempo de casa, Hatoum se tornou um dos meus cronistas favoritos. Gosto muito dos seus livros e adivinho, por trás daquilo que escreve, ou nas entrelinhas, uma visão de mundo que bate muito com a minha. Mas divago: na crônica, Hatoum lembrava do tempo em que viveu em Paris, num quartinho modesto, enquanto sonhava ser escritor e lutava com seu primeiro romance. Morava no bairro do Marais, que fica, se minha memória não falha, no 4 éme arrondissement. Viveu por ali, segundo diz no texto, por volta dos anos 80.

A crônica me surpreendeu, porque acho que fomos vizinhos. Eu lá vivia exatamente nessa época e muito próximo a ele. Morava no Boulevard Beaumarchais, ao lado da Bastilha, e muito próximo ao Marais. Aliás, costumava ir a pé quase todos os dias até a simpática Place des Vosges, lá pertinho de casa. Gostava de sentar num dos bancos da praça e ler, quando o tempo permitia. Era sossegado, e simpático, a praça rodeada por aquele casario regular. Numa delas, parece, morou Victor Hugo. Pode ser que eu o Milton fizéssemos compras no mesmo lugar. Por exemplo, lembro que costumava comprar vinho numa lojinha simpática da rue du Pas de la Mûle (Alguém deveria escrever um livro sobre o pitoresco dos nomes de ruas em Paris, rue du Petit Musc, rua du Chat qui Pêche, etc. Provavelmente esse livro já existe e deve ser possível encontrá-lo num buquinista do Sena). Certamente devemos ter nos cruzado em alguma boulangerie, comprando uma baguete para o almoço. Ou no metrô. Ou tomando um copo de vinho no Le Drapeau de la Bastille, o boteco mais próximo da estação do metrô.

Na crônica, Hatoum lembra-se das aspirações daquele tempo. Ele queria ser um escritor e sacrificava-se, vivendo no quartinho modesto, ganhando a vida com traduções, que fazia junto com uma amiga. Mas sentia que era algo que deveria sacrificar pela arte, pois escrever era o que queria e, para escrever, não havia melhor lugar do que Paris, mas isso sou eu imaginando.

É curiosa essa necessidade de nos deslocarmos, geograficamente, quando queremos adquirir alguma experiência, ou uma perspectiva diferente. Além do mais, havia naquele tempo, a mística de Paris. Mas esta é outra história.

Nesse ponto, nossos caminhos divergem. Eu não tinha qualquer aspiração literária concreta, embora escrevesse e lesse o tempo todo. Tinha ido para lá porque estava farto do Brasil dos militares e Paris me parecia o refúgio possível naquele momento. Ia, também, em busca de um vago aperfeiçoamento na profissão que escolhera: a psicanálise, pasmem. Enfim, são águas passadas.

Voltando à crônica, Hatoum disse que reviu Paris, várias vezes, mas nunca a reencontrou de fato. Imagino que queira dizer, que nunca mais teve aquela sensação, o mesmo frescor de alguém que aspira a uma carreira artística e luta por ela, mesmo quando tudo faz supor que será muito difícil concretizar o sonho.

De minha parte, devo dizer que, tendo sido ou não vizinho virtual de Milton Hatoum, também nunca consegui reencontrar aquela Paris do final dos anos 70 e começo dos 80 Voltei muitas vezes à cidade depois que deixei de viver por lá, e suponho que, se a sorte me favorecer, voltarei outras tantas, pois é um dos meus cantos favoritos no mundo. Voltei, mas nunca recuperei aquele maravilhoso ar de esperança, aquela fantástica indefinição que temos quando não somos ninguém e, portanto, podemos nos dar o direito de sonhar qualquer futuro.
Claro que isso se sente em qualquer parte, mas, por algum tipo de superstição, ou de mitologia pessoal, imagino que, no meu caso, foi potencializado em meu período parisiense. Acredito que fomos vizinhos nesse sonho. Ou em sonhos parecidos.

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