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Sequestro

Luiz Zanin Oricchio

09 de dezembro de 2011 | 10h46

Com Sequestro, o diretor Wolney Atalla pretende fazer um acompanhamento de perto deste que é um dos tipos de crimes mais temidos pela população. Até por essa densidade emocional, o tema merecesse, talvez, abordagem mais sóbria que sensacionalista.

O documentário segue a receita dos programas policiais mais barras pesadas da TV. Segue vários casos de investigação da divisão anti-sequestro da polícia paulistana, acompanha o drama dos parentes das vítimas, testemunha a negociação do resgate com os criminosos. Acompanha também o desfecho de alguns casos e registra o desespero das vítimas.

Como trabalha com imagens de alto impacto emotivo, não precisaria de maneira alguma dramatizá-las ainda mais. Ou turbiná-las com uma trilha sonora rebarbativa, que chantageia e joga com a emoção do espectador. À maneira televisiva, bastante tosca, aproxima a câmera em zoom dispensável na hora em que pressente a possibilidade de lágrimas. É um filme manipulador de emoções e não nega em momento algum esse DNA.

Nem por isso precisaria também chegar ao paroxismo de responsabilizar a antiga esquerda armada pela onda de sequestros operada agora por criminosos comuns. A esquerda, coitada, já tem problemas suficientes hoje em dia para responder por mais esta acusação. A tese é de que os bandidos comuns aprenderam a técnica na cadeia junto aos guerrilheiros presos por sequestros com motivação política, como o dos embaixadores de vários países nos anos da ditadura.

Enfim, o ponto de vista constante e único do filme é o da polícia e fixa-se em referências fortes, como um delegado de fina estampa e fala fácil, o maior dos candidatos a herói que o filme providencia ao seu público.

Apresentando Sequestro no Festival do Recife de 2010, Atalla debateu com os jornalistas. Quem fazia reparos pelas escolhas de linguagem adotadas recebia a resposta de que o filme não era sobre fotografia e nem sobre música. Óbvio. Mas a maneira como se fotografa, ou se coloca uma trilha sonora, ou se decupam planos e depoimentos, e como estes são montados, não é nunca neutra. Tudo determina opções de leitura do filme e a deste, claramente, leva numa direção não reflexiva e catártica. Parece uma espécie de versão documental bastante piorada da ficção Tropa de Elite. Quando alguém lhe perguntou quais eram suas referências cinematográficas, Atalla, respondeu que era o seriado 24 Horas. As palavras dizem tudo. Antes de ser “liberado”, o filme foi mostrado à cúpula da polícia.

Sequestro é o segundo filme de Wolney Atalla. Filho de usineiro, estreou com o documentário A Vida em Cana, na qual defende de maneira romântica o corte manual da cana de açúcar como expressão de não se sabe qual tradição brasileira; um trabalho brutal, que deveria, segundo ele, ser preservado como uma espécie de bem imaterial do País. Como contraponto dessa tese, veja-se o ótimo Acercadacana (assim mesmo, tudo junto), de Filipe Perez Calheiros, sobre a realidade da vida desses trabalhadores.

Não espanta, portanto, que responsabilize a oposição armada à ditadura militar por uma das mais pavorosas modalidades de crime do presente. Filmes se fazem na cabeça, antes de serem filmados.

(Caderno 2)

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