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Senhores do Crime

Luiz Zanin Oricchio

23 Fevereiro 2008 | 12h39

Há quem diga que Senhores do Crime não é um Cronenberg típico. Acostumados a filmes como Gêmeos – Mórbida Semelhança, Spider ou, pior, eXistenZ, acham essa história envolvendo a máfia russa em Londres normal até demais. Mas talvez seja o gosto de Cronenberg pelo dark e pelos desvãos menos claros da alma humana que lhe permitam levar essa trama mantendo a sensação de estranheza e a tensão até o final.

Na trama, há uma enfermeira inglesa, Anna (Naomi Watts), que assiste à morte de uma parturiente. O bebê se salva e existe um diário, escrito em russo, que conta a história da moça. Anna, que também é de família russa, mas não compreende o idioma, precisa de ajuda para decifrar o texto. Para seu azar, vai pedir auxílio à pessoa errada. O que interessa aqui é saber que ela vai entrar em contato com alguns tipos muito estranhos, como o suposto dono de um restaurante de comida russa, Semyon (Armin Mueller-Stahl), seu filho, bêbado e violento, Kirill (Vincent Cassel) e Nikolai (Viggo Mortensen), motorista e guarda-costas da família.

Como em todo filme de máfia, italiana ou russa, pouco importa, sempre há alguma referência à matriz – O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola. Mas referência não quer dizer que os diretores vão tocar no mesmo diapasão. Onde Coppola, mesmo sangrento, consegue ser solar, Cronenberg é lunar, soturno. A aproximação entre os dois se dá no matizado personagem Semyon, tipo paternal, no limite entre a doçura e a dureza. Essa ambigüidade só faz potencializar a sua presença em cena.

Aliás, Senhores do Crime é um filme das dubiedades, a partir do seu personagem principal, uma interpretação extraordinária de Viggo Mortensen. Ele é a figura dócil à família, mas ao mesmo tempo mostra-se capaz de um relacionamento, digamos, diferenciado com Anna, que é o pólo frágil da trama. Espécie de consciência crítica, e por isso sofrida, que contempla um mundo transformado em caos.

Essa dubiedade do personagem será levada até o fim. Será ela, aliás, que fará as vezes de motor da história que, de outra forma, poderia ser apenas convencional – pelo menos como narrativa. Mas como existe esse alguém que parece flutuar acima, ou ao lado, dos outros envolvidos, o espectador é presa de uma tensão e de uma curiosidade constante. Até aonde tudo isso pode ser levado? Qual grau de crueldade humana pode ser suportado em uma sociedade civilizada?

São temas e subtemas decorrentes da história. Que não deixa de tocar num ponto incômodo, a ambientação bastante fácil dos filhos do desastre soviético na Europa – daí o título original, Eastern Promises, Promessas do Leste. O fato de que bandidos se movam com tanta facilidade, em meio à prostituição organizada, tráfico de drogas e de armas, é um comentário marginal, mas não menos importante sobre a globalização e seus efeitos secundários.

Nada disso, no entanto, faria sentido não fosse a maneira como Cronenberg encontra a forma para afrontar esse conteúdo crítico. A paisagem é noturna, a iluminação, baixa. As relações, tensas. E os personagens parecem vestir máscaras que vão aos poucos caindo, até chegar a uma nudez moral. Dessa forma, o personagem que mais se esconde, Nikolai, será aquele que afrontará com seu corpo nu as contingências da história. Deixando-se tatuar, como é da tradição da Vory V Zakone, a sociedade criminosa. E, depois, lutando num no interior de uma sauna, contra agressores que tentam matá-lo. É uma das mais extraordinárias, longas e tensas lutas do cinema contemporâneo.

(Caderno 2, 22/2/08)