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Selma

Luiz Zanin Oricchio

16 de fevereiro de 2015 | 09h24

Com um pouco de má-vontade, seria possível dizer que Selma é um filme menor escondido atrás de um grande tema. Com mais benevolência, pode ser visto apenas como uma obra aquém do assunto abordado. Este não poderia ser maior, e nem mais atual. A luta pelos direitos civis dos negros norte-americanos, liderada por ninguém menos que Martin Luther King. Sua atualidade, por paradoxo, reaparece quando os Estados Unidos têm o primeiro presidente negro de sua história em seu segundo mandato, mas ao mesmo tempo a polícia mata cidadãos negros no país.

Com esse potencial incandescente, Selma foi alvo de polêmica nos Estados Unidos. Em especial, porque  subvalorizado no Oscar, ficando apenas com duas indicações – a de melhor filme e canção original. Sua diretora, Ava DuVernay, não está indicada em sua categoria. A ausência entre os indicados do ator britânico David Oyelowo, que no filme interpreta Luther King, contribuiu para a polêmica. Como se o Oscar deste ano estivesse prestando pouca atenção à questão racial, tantos anos depois ainda tão presente no país, apesar de Obama.

Outros aspectos foram postos em discussão, em especial o papel desempenhado pelo presidente Lyndon Johnson (Tom Wilkinson) no episódio. Para os defensores da memória de Johnson, seu papel é minimizado, enquanto para detratores, ele se sai bem até demais na trama.

Enfim, Selma contém em si todas as controvérsias costumeiras nas visitas do cinema à História – aquela com agá maiúsculo. No caso, a diretora Ava DuVernay concentra-se nas marchas de 1965 no Alabama, memoráveis na trajetória de Luther King e na efetivação dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. O filme abre um arco entre dois momentos – o reconhecimento do dr. King como grande líder do movimento negro, o que lhe vale o Prêmio Nobel da Paz, ao discurso em Montgomery, capital do Alabama, uma das suas maiores peças de oratória.

Esse momento da história americana contém todos os ingredientes para uma fervorosa peça dramática. De um lado, King, seus aliados, e pessoas do movimento negro dispostas a soluções mais rápidas e radicais. De outro, um governador racista, George Wallace (Tim Roth), uma população branca hostil, a Ku Klux Klan, e um presidente pressionado pelos dois lados em disputa.

É pena que desse ambiente efervescente de luta política saia um filme um tanto frouxo, apesar da boa atuação da maior parte do elenco. O tom é solene e Ava DuVernay não faz muita questão de matizar personagens de modo a humanizá-las. Parte para definições rápidas, com traços ligeiros que tendem sempre à superficialidade, para não falar em caricatura.

O drama também parece indeciso entre as duas esferas que o compõe – a trajetória pública e a vida pessoal do dr. King. Esta é vigiada pelo FBI, então sob a guarda do tristemente famoso Edgard Hoover, que tenta encontrar uma brecha na vida familiar do líder de modo a fragilizá-lo. Nessa indecisão entre vida privada e pública o que fica fragilizado é o filme. Como a causa de King é justa e atual não se consegue ficar indiferente a ela, apesar de todos os problemas de Selma

Box

As marchas de Selma a Montgomery se dão no contexto das lutas pelos direitos civis dos anos 1965. A primeira delas ocorreu em 7 de março, conhecida como “Domingo Sangrento), quando 600 manifestantes foram atacados brutalmente pela polícia. Na segunda, já liderada por Luther King, os manifestantes recuaram e voltaram atrás quando as tropas abriram passagem. Na terceira, chegaram até a capital do Alabama, onde King proferiu seu discurso. As marchas defendiam que o direito dos negros ao voto, já assegurados em nível nacional, fosse exercido sem entraves no Alabama.