As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Seis propostas para 2014

Luiz Zanin Oricchio

06 de julho de 2010 | 08h29

Em plena ruminação da derrota, deveríamos já projetar alguma coisa para 2014, quando faremos a Copa em casa. Vão aí algumas sugestões, inspiradas nas “Propostas para o Próximo Milênio”, de Italo Calvino, apenas para clarear ideias.

1) Visibilidade
Buscar um técnico experiente e de consenso. Não vejo outro nome senão o de Luis Felipe Scolari. Luxemburgo seria o meu favorito, é tecnicamente superior. O problema é que Luxa não se concentra mais apenas no futebol, está brigado com os donos da CBF e tem mau trânsito com setores influentes da imprensa. Iria trabalhar quatro anos sob vento e tempestade. Novatos deveriam ficar de fora e esperar a vez. As limitações táticas de Dunga e Maradona ficaram como lições de 2010. Se a CBF reincidir no erro e contratar um Leonardo, por exemplo, já podemos começar a pensar em 2018.
2) Exatidão
Para o bem de todos, e para alívio geral da nação, deveríamos arquivar de vez a dicotomia entre futebol-arte x futebol de resultado. Não se trata de “jogar bonito” ou “dar espetáculo”, pois futebol não é jogo de exibição. É de competição. Dois fatos contribuem para essa oposição inútil: a derrota em 1982 (jogando bonito) e a vitória em 1994 (jogando feio). O Brasil ganhou jogando bonito (1958, 1962 e 1970) e jogando feio (1994). Em 2002, era bastante pragmático no setor defensivo, mas quando a bola saía da defesa para o ataque encontrava uma turma dotada de repertório: Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho. Perdeu jogando feio em várias ocasiões: 1990, 1998, 2006 e 2010. Jogar feio não é mérito. Nem garantia de resultado. A dicotomia não é entre jogar bonito e jogar feio, mas entre jogar bem e jogar mal.
3) Leveza
Respeitar a tradição de um estilo de jogo que teve êxito e despertou admiração mundial não é ser conservador ou romântico. A tradição, quando vitoriosa, serve como base para construir o contemporâneo. A seleção de 1970 não jogava como a de 1958. Pelo contrário, mudou, adaptou-se a um jogo que já havia evoluído e serviu para indicar o caminho do futebol de sua época. Ao mesmo tempo, manteve vivo um estilo de jogar, uma filosofia de jogo criativa, leve e ofensiva.
4) Rapidez
Não deveríamos ter medo dos jovens, como em 2010. Não sabemos e ninguém sabe se o desastre teria sido evitado com a presença de garotos como Ganso e Neymar, mas por certo eles mexeriam naquele marasmo em que se transformou a seleção. Não precisamos nem apelar para o nome de Pelé, que estreou com 17 anos numa Copa. A seleção da moda desta Copa, a da Alemanha, está recheada de jovens talentosos – Özil, Müller e Khedira. De maneira geral, um grande time, capaz de vencer essa prova de fogo chamada Copa do Mundo, é a mescla feliz entre experiência e sangue novo.

5) Multiplicidade

Sem perder a perspectiva internacional, deveríamos aprender a olhar também para nós mesmos. Nem sempre os melhores jogadores estão na Europa. Nem sempre os melhores exemplos vêm da Europa. Há ótimos jogadores despontando no Brasil. Há times jogando bem no Brasil. Devem ser olhados, sem preconceitos. A superioridade europeia é econômica. Não deveríamos confundir as coisas e achar que quem tem mais dinheiro é superior a nós e tem razão em todos os assuntos. Essa atitude, da CBF e dos técnicos que contrata, tem um nome: provincianismo.

6) Consistência
Esta só se obtém quando observamos que estamos no mundo e temos nossa própria cara, ao mesmo tempo. Não podemos ignorar os outros. Nem imitá-los, feito macaquitos.  No futebol, e não apenas nele, a consistência é uma mescla de realismo com fantasia. Apenas um desses dois elementos não é capaz de dar liga a um time. Ou a uma vida.

Mais conteúdo sobre:

Copa 2014Futebolseleção brasileira