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Segundo centenário *

Luiz Zanin Oricchio

17 de abril de 2012 | 15h28

Amigos, para quem não acredita em coincidências, o gol de PH Ganso foi uma espécie de declaração de princípios para o segundo centenário do Santos Futebol Clube. Pura arte. Um toque sutil sobre o goleiro. Quem estava no estádio viu uma cena em câmera lenta. A bola indo devagarzinho por cima do goleiro, que recuou, desesperado, e não conseguiu impedir que ela beijasse a rede. Todos antevimos o gol. Vai ganhar placa.

Mas talvez o caráter simbólico desse gol seja ainda maior do que a sua beleza em si. O Santos, no domingo, fechava as comemorações do centenário e dava início ao seu segundo século de atividade futebolística. Não poderia haver nada de maior simbolismo que um gol assinalado com tamanha classe, uma tacada precisa, seca e decisiva como a de um mestre da sinuca. Ganso é a elegância em campo. Assistia ao jogo com um amigo quando ele me perguntou: “Sem olhar, me diga qual o único jogador do Santos que está com a camisa dentro do calção?” Ganso, fácil, um craque como os de antigamente, como Didi, como Falcão, que passeavam pelo gramado sem jamais perder a compostura.

Então era isso. O Santos, com esse gol, começava seu segundo centenário, a dizer que iria honrar sua história e continuar a praticar o seu melhor futebol. Esse futebol que, à falta de nome mais adequado, chamamos futebol arte, e que tem no Santos o seu melhor representante atual. Outros times também jogaram esse futebol. O Palmeiras de Ademir da Guia, o Botafogo de Garrincha, o Flamengo de Zico, O Internacional de Falcão, o Cruzeiro de Tostão. Sempre foi o melhor perfil do futebol brasileiro, o seu ângulo mais favorável, embora ele não possa se resumir a ele. Existe uma diversidade de cultura futebolística no País e times leves e envolventes convivem com outros mais pesados e nem tão encantadores, embora eficazes. Mas o chamado futebol arte, o jogo ofensivo, o beautiful game é ainda a nossa melhor tradição e o Santos se dispõe a levá-la adiante. É uma proposta, séria e concreta: honrar a tradição do jogo, preservar um estilo, mesmo que ele tenha de se adaptar a novos tempos e outras exigências.

Claro que nada disso se faz apenas com boas intenções. Se o Santos tem a tradição em que se inspirar – o magnífico time dos anos 1960, considerado o melhor de todos os tempos – é preciso base material para honrá-la. Ninguém pratica futebol arte com cabeças de bagre. É preciso jogadores de ponta. E o Santos, talvez o time brasileiro que mais bem emprega suas categorias de base, tem mostrado, no passado recente, que também se sai bem em manter suas revelações. Pelo menos o maior tempo possível. Ganso e Neymar ficaram. Estão aí, para comandar um time que, se não é tão deliciosamente irresponsável quanto aquele do primeiro semestre de 2010, pode ser ainda mais maduro, vencedor e consciente de si. É um time já vitorioso e também escaldado por uma derrota dura, que lhe deu consistência. Enfim, esse clube de grande passado não se contenta com ele. Usa-o como fonte de inspiração. E isso é muito bom.

O desafio do segundo centenário é manter-se assim. Fiel à sua origem, mas jovem e moleque.

* Coluna Boleiros, publicada no Caderno de Esportes do Estadão

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