Se não Nós, quem?
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Se não Nós, quem?

Luiz Zanin Oricchio

11 de novembro de 2011 | 19h18

Se não Nós, Quem? Com esse título interrogativo, o filme dirigido por Andres Veiel coloca personagens reais num clima de alta temperatura política.

Os personagens são Bernward Vesper e Gudrun Ensslin. Bernward é um candidato a escritor, filho de um intelectual que mantém acesas suas simpatias pelo nazismo em plena década de 1960. Na universidade, Bernward conhece Gudrun e os dois iniciam um relacionamento que terminará em casamento. No pano de fundo, a efervescência política juvenil, que começa a espocar em diversos lugares do mundo: França, Estados Unidos, Brasil. A Alemanha, ainda traumatizada pela guerra, pela memória do nazismo e pela divisão imposta ao país, parece adormecida. Parece, apenas.

Como todo filme de época, e em especial de épocas febris, tudo depende da fidelidade com que se capta um determinado clima. Não se trata de uma questão da direção de arte (embora esta conte, e muito) mas da compreensão do diretor de um certo ethos, a mentalidade predominante a ser evocada. O modelo atual para esse tipo de evocação é Carlos, o estupendo filme de Olivier Assayas sobre o controvertido personagem Ilitch Ramírez Sanchez, o Chacal.

Sem nem de longe alcançar a altura, o alcance e vibração de Carlos, Se não Nós, Quem? evoca de forma viva uma época de disposições violentas, de desejo de transformação imediata do mundo, de utopias e extremismos, que foram as décadas de 60 e, em parte, a de 70. Evoca, também, personagens controversos como Andreas Baader e Gudrun Ensslin, fundadores da Fração do Exército Vermelho, também conhecido como grupo Baader-Meinhoff.

São trajetórias trágicas, de personagens que viveram com intensidade fora do comum, sejam quais forem os julgamentos que se tenha sobre eles. Para interpretá-las, Andres Veiel reuniu um elenco à altura. August Diehl faz um convincente Vesper, dilacerado entre a herança intelectual do pai e uma época que o levava ao extremo oposto. É autor do livro considerado um dos grandes depoimentos sobre sua geração, A Viagem (Die Reise). Lena Lauzemis compõe uma Gudrun muito forte, presença que vai crescendo na tela à medida que a história avança. O Andreas Baader de Alexander Fehling ocupa, no filme, posição um tanto secundária, o que não ocorreu na história real. Mas aqui é questão de foco.

E o foco estava posto mais nesse casal assimétrico, Vesper e Gudrun, do que na questão da luta política protagonizada por Baader.  Essa luta fornece a adrenalina, e mesmo a motivação dos personagens em seus processos de ruptura. Só se compreende um caso de amor terminal como este dentro desse contexto de alta tensão. O uso de material de arquivo, cinejornais com imagens reais da época, confere peso gravitacional de verdade ao filme.

(Caderno 2)

 

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