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Se Nada Mais Der Certo

Luiz Zanin Oricchio

18 de agosto de 2009 | 09h06

Muita coisa em Se Nada Mais Der Certo evoca o cinema de John Cassavetes. O sentido de improviso, a câmera solta e sempre junto aos atores, a intensidade. No entanto, o paulistano, criado em Brasília, José Eduardo Belmonte, diz que são coincidências. Esse é o seu cinema mesmo e ele só viu Cassavetes depois de ter estabelecido seu estilo. Belmonte prefere dizer que recebe influência mais direta do jazz, que, por acaso, era também importante para Cassavetes. Ambos admiram a música que se improvisa em torno de algumas células, a arte que se vai criando à medida mesmo em que é feita, sem um ponto de chegada fechado. Importa mais o caminho, como para Charlie Parker ou John Coltrane. Parker, convém lembrar, era modelo de artista para um escritor como Julio Cortázar, numa prova (se necessária fosse) da comunicabilidade permanente entre as artes e artistas. Mas, para Belmonte, há outro ponto de referência muito claro: “O importante, para mim, são os atores mesmo”, diz. “São eles que determinam para onde o filme vai e até mesmo a maneira como é feito”.

O que exige entrega. E isso não tem faltado aos elencos de Belmonte, que está em seu quarto longa-metragem. Os outros três – Subterrâneos (2004), A Concepção (2005) e Meu Mundo em Perigo (2007) – ajudaram a forjar uma ideia de “família”. Atores que se reúnem em torno de um projeto comum e a ele se dedicam de maneira integral. O guru, se o termo cabe, dessas empreitadas é Belmonte, que não esconde uma vocação religiosa, no sentido mais amplo do termo. Ele brinca: “Frequentei seminário e não segui adiante na carreira de sacerdote porque descobri que padre não casa, e aí não dá pé”, ri.

No entanto guardou algo dessa espiritualidade, que transformou em exigência laica mas nem por isso menos rigorosa: “Acho que procuro alguma espécie de iluminação, alguma transcendência com meus filmes; não deixo por menos”, diz. Essa transcendência, ele vem descobrindo de maneira oblíqua, pode-se dizer, porque se é verdade que seus filmes formam um conjunto, eles podem ser chamados de tetralogia da crise, como faz o próprio diretor. Não se trata de buscar unidade onde ela não existe, mas de reconhecer que as obras vão se seguindo, uma após outra, como formas diferentes e progressivas de enfrentar as mesmas questões. Uma delas, talvez a mais premente: a crise da juventude, que se desdobra na questão de uma identidade sempre problemática.

“O engraçado é que nem eu havia percebido isso, até que foi apontado por um crítico”, diz o diretor. “Há sempre nos meus filmes, pelo menos até agora, esse relacionamento problemático com a identidade, com o próprio documento mesmo”. O ápice dessa vertente aparece em A Concepção, com os membros da comunidade queimandos seus Rgs como forma simbólica de negação do próprio Eu. Mas a questão dos documentos de identidade aparecem em todos os outros filmes. É uma repetição inconciente do diretor e, quando acontece esse tipo de coisa, em geral é porque se tocou, sem querer, naquilo que incomoda e que insiste como falha da sociedade contemporânea. A ascese de Belmonte procura alguma luz nessa treva: quem somos, num mundo progressivamente impessoal e solitário apesar da proliferação de meios de comunicação e sites de relacionamento?

A questão explode na pequena história exemplar de Se Nada mais Der Certo. Cauã Reymond é Léo, um jornalista desempregado que se une a uma traficante lésbica, Marcin (Caroline Abras) e um taxista, Wilson (João Miguel). Há uma ambivalência moral latente em tudo o que acontece. É como se o diretor dissesse que o caminho da lei e o do crime são separados por uma fronteira tênue demais para ser percebida em situações de desespero. Todos precisam de dinheiro, todos se encontram em um ambiente em que padrões rígidos de comportamente não valem de modo absoluto. E, aqui, o filme se enlaça, de maneira incisiva, na vertente da crítica social, ao mostrar que valores frouxos, com a confusão permanente entre o público e o privado, acabam se espraiando por toda a sociedade. Não se trata de ser amoral. Apenas expressa a recusa de cobrar comportamentos morais do andar de baixo da sociedade enquanto o andar de cima se refestela em seu vale-tudo habitual. “Eu sinto Se Nada Mais Der Certo como um filme eminentemente político”, diz Belmonte.

E às vezes é diretamente político mesmo. Por exemplo, quando incorpora em cena imagens do debate na campanha presidencial entre Lula e Alckmin. Ou quando, na sequência mais polêmica, o trio resolve praticar um assalto e se disfarça atrás de máscaras que reproduzem as feições de Sarney, FHC e Collor. Antes mesmo de o filme ser lançado, um clipe com essa cena circulou no YouTube e chegou ao conhecimento do Congresso. “O senador Arthur Virgilio (PSDB-AM) cobrou do então ministro da Cultura Gilberto Gil explicações sobre o financiamento do filme, sob alegação de que havia desacato ao presidente de honra do partido dele numa obra que contava com dinheiro público.”

Acontece que se o filme de Belmonte é político nem por isso é partidário. É sobre a desesperança de maneira geral, mas em especial entre jovens. E essa desesperança abrange o campo político, como não poderia deixar de ser, até porque os próprios políticos não se cansam de dar motivo para isso.

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