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Scorsese, um prêmio pelo conjunto da obra?

Luiz Zanin Oricchio

27 Fevereiro 2007 | 14h03

Prometeram que ia ser o Oscar da globalização. E foi mesmo. A premiação da Academia seguiu fielmente o espírito da globalização: uma aparência democrática, com ‘oportunidades para todos’, mas a parte do leão devidamente reservada aos vencedores de sempre. Para latinos e outras minorias, ficaram os prêmios de consolação. O Oscar como sintoma do mundo.

Como é um prêmio norte-americano, e não global como às vezes e sobretudo este ano se quis fazer acreditar, elegeu quem se instala na sociedade do seu país para refleti-la. Nesse sentido, e também em outros, parece lógica a premiação para Os Infiltrados, de Martin Scorsese (diretor e filme, além de roteiro adaptado e montagem).

É claro que não é o melhor Scorsese. Os Infiltrados não se compara de modo algum a Táxi Driver, Os Bons Companheiros, Touro Indomável, seus, sem trocadilho, pesos pesados. E por isso mesmo o diagnóstico mais plausível é que Scorsese está sendo premiado por sua carreira e também para reparar uma injustiça, pois trata-se de cineasta respeitado no mundo todo, e há muito tempo. Só Hollywood não via. Acabou vendo, talvez por vias tortas, mas nem tanto.

Pode ser que Cartas de Iwo Jima fosse uma escolha melhor. Pode ser que Babel fosse mais ousado, ou Pequena Miss Sunshine representasse uma subversão. Mas não se pode dizer que o prêmio a Os Infiltrados seja absurdo. Nem mesmo o fato de ser uma refilmagem de Infernal Affaires, de Hong Kong, o diminui. Por que uma refilmagem não pode ser criativa e adaptada a novas condições? Pois parece que Scorsese fez exatamente isso e usou a história alheia para prosseguir em sua pesquisa sobre a violência estrutural do Estado americano, e que já havíamos visto em filmes anteriores, inclusive no também questionado Gangues de Nova York.

Além do mais, Scorsese é um dos poucos cineastas de fato internacionais no panorama norte-americano. Até por uma contingência familiar (filho de imigrantes italianos) mantém um pé na Europa. É um estudioso do cinema do seu país, mas também do grande cinema italiano que influenciou a sua obra, como atesta seu documentário Il Mio Viaggio in Italia. De qualquer forma, Os Infiltrados, com seu tema da dupla traição, é um filme a ser revisto, como o será em razão do triunfo no Oscar.

Porém, para além das controvérsias temáticas e mesmo ideológicas que possa suscitar, cabe reconhecer que Os Infiltrados é dirigido com o virtuosismo que já nos acostumamos a associar a Scorsese. Um belo exercício de mise-en-scène, que por si só, mais do que por temas e assuntos, fala da visão de mundo do cineasta. Uma visão desencantada, para além dos preconceitos politicamente convenientes e que procura ir ao cerne das questões. Entre elas, as fundamentais, que todo povo belicoso deveria se fazer: ‘De que material somos feitos? Qual o nosso passado? Qual o nosso futuro? De que maneira tratamos o mundo? Somos dignos de compaixão?’ Inútil dizer que as perguntas de Scorsese são das de um cineasta politicamente consciente, mas também de um artista banhado pelas questões do catolicismo, das noções de culpa e de responsabilidade.

Em algumas das outras categorias, prevaleceu o que indicavam as prévias: estatuetas para Helen Mirren (A Rainha) e Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia), como se esperava. O mesmo para atriz coadjuvante, que premiou Jennifer Hudson, de Dreamgirls. Talvez fosse mais bonito lembrar de Adriana Barraza, de Babel, mas a cota de diversidade latina já havia estourado com a tripla premiação de O Labirinto do Fauno (maquiagem, fotografia e direção de arte) e passaram batido pelo belo trabalho de Adriana como a babá perdida entre o México e os Estados Unidos.

Aliás, Babel, como um todo, foi mal premiado. Saiu vice-recordista de indicações e teve de se contentar com trilha sonora. Quer dizer, foi um pastel de vento. Assim como Dreamgirls, que veio com sete indicações e voltou com dois prêmios, som e atriz coadjuvante. Tinha-se como certo Eddie Murphy para fazer par com Jennifer Hudson e ganhar a outra estatueta de coadjuvante, mas esta, numa das maiores surpresas deste Oscar, foi parar com Alan Arkin, de Pequena Miss Sunshine.

A premiação de Arkin (que fez o papel do embaixador americano seqüestrado em O Que É Isso, Companheiro?, de Bruno Barreto) pode ter sua origem no desejo de agradar a um velho ator muito querido em Hollywood. Pode ser, porque premiações, mesmo votadas por um amplo colégio eleitoral (mais de 6 mil membros) raramente são impessoais. Contam as simpatias, as afetividades, as birras. Conta também a vontade de fazer justiça histórica, como parece ter sido o caso de Scorsese, mas também o de Arkin, que, aos 72 anos, leva para casa seu primeiro Oscar. Foi o que sobrou para o azarão Pequena Miss Sunshine, além da estatueta de roteiro original. Para um filme que vinha ganhando força, com alguns apostando que venceria até mesmo o prêmio principal, não deixa de ser decepcionante.

Quanto à festa de premiação, foi mais um desastre esperado. O de sempre: cerimônia longa, animada por aquele senso de humor estranho ao resto do mundo, modelitos discutíveis, agradecimentos intermináveis, um tanto de emoção pelos mortos do ano diluída em meio à cafonice geral. Um belo momento, este sim digno de registro na memória, foi a premiação de Ennio Morricone, pela carreira. Ennio falou em italiano, como convém. Clint traduziu. Ver aqueles dois belos velhos juntos no palco, dois antigos companheiros de trabalho, foi uma recompensa para a maratona massacrante do Oscar 2007.