Scorsese, por dentro
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Scorsese, por dentro

Luiz Zanin Oricchio

14 Novembro 2006 | 17h32

Escrevi uma crítica de Os Infiltrados, de Martin Scorsese. Não houve espaço para publicar a versão maior, que segue abaixo. Tenho a impressão de que está melhor do que a outra. Mas posso estar enganado. Abraços.

infil
Cena de Os Infiltrados, com Jack Nicholson e Matt Damon

Anda sendo dito por aí que, depois das experiências com filmes “históricos” com Gangues de Nova York e O Aviador, Scorsese teve o bom senso de voltar à sua área de ação preferencial, os conflitos interiores da criminalidade, de filmes como Os Bons Companheiros e Cassino. É possível. Mas é possível também, aliás é muito provável, que o tema preferencial de Scorsese tenha continuado o mesmo ao longo de projetos tão diferentes – uma análise da violência primordial que está inscrita no coração da América.
Esse seria o “tema” obsessivo do diretor, aquele que vem da experiência de vida infantil e da preocupação do adulto, e que se expressa por meio de histórias diferentes. As histórias são meio; a análise do tema é o fim. O que não quer dizer que não haja um universo ficcional em que um artista pareça se mover com mais facilidade e naturalidade. E o ambiente da criminalidade parece ser o habitat imaginário do católico Scorsese. E se entende, porque no paroxismo do crime é onde culpa e redenção podem encontrar sua forma mais expressiva (como aliás já sabia Dostoievsky quando escrevia Crime e Castigo).

Em Os Infiltrados, Scorsese trabalha com uma história dupla: Collin Sullivan (Matt Damon) é um informante do chefão da máfia de Boston, Costello (Jack Nicholson), infiltrado na polícia. De outro lado, Billy Costigan (Leonardo DiCaprio) vê-se em situação inversa. Forja-se um crime que justificaria a sua expulsão da polícia e logo em seguida ele é integrado à gangue. Na verdade, é um informante da polícia, infiltrado junto a Costello. Os Infiltrados é, portanto, uma história de lealdades e traições. De agentes duplos que têm de fingir serem o contrário do que são. Mas que, fingindo, descobrem que os dois extremos da sociedade curiosamente se tocam, em mais de um ponto.

A estratégia de Scorsese não é dizer que não existem fronteiras entre a lei e o crime, posição tão niilista quanto simplificadora. Mas é discutir onde estão os limites entre um domínio e outro e por que motivo eles parecem se interpenetrar mais de uma vez. Por outro lado, existe um substrato que parece borrar e confundir essas fronteiras móveis – a violência que aparece na base de formação da sociedade americana, talvez mais do que nas outras. Esse tema, que aparecia com tanta clareza em Gangues de Nova York (e talvez uma das fraquezas deste filme estaria em explicitá-lo tanto), é lido aqui nas ações cotidianas dos seus personagens. A uma certa altura, alguém diz: “Neste país parece que todos se odeiam” e com esta frase define-se o espírito da coisa.

Scorsese não precisa fazer sociologia, ou mesmo buscar explicações muito profundas para entender que, quando se elege a competição como motor único da vida em sociedade, a violência surge como decorrência natural. Aceitando-se um termo da equação será preciso aceitar outro. Isso sabemos. O grande cinema, como o de Scorsese, tem o dom de dramatizar essa constatação óbvia. Torná-la narrativamente convincente e emocionalmente impactante.

Dito isso, convém acrescentar que os personagens, para atingirem esse fim, são construídos de forma complexa. Billy e Collin têm origem comum e, no fundo, são muito parecidos, embora trabalhem em campos opostos. São como Caim e Abel, como Esaú e Jacó, os irmãos inimigos, o fraterno desacordo, a guerra entre semelhantes. E o “mal”, Costello, é um mal complexo, porque ambíguo e sedutor. Um Jack Nicholson que já disseram que trabalha no automático, mas com uma intensidade rara. É sempre um prazer vê-lo em cena.