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Sciascia: a verdade mora no fundo de um poço

Luiz Zanin Oricchio

18 de abril de 2010 | 09h10

A verdade está no fundo do poço: se olhar dentro de um poço, verá o sol ou a lua; mas se resolver se jogar lá dentro, não há mais sol nem lua, só a verdade.

Bem pesadas, essas palavras apontam para os limites da busca da verdade. Existe uma fronteira entre o que se pode saber e o que não se pode. E a morte traça esse limite. Essas considerações não foram ouvidas em um sereno colóquio de filósofos. Elas saem da boca de dom Mariano Arena, capo mafioso, personagem de O Dia da Coruja,de Leonardo Sciascia. São dirigidas ao homem que o interroga, o capitão Bellodi, originário de Parma e deslocado para a Sicília para investigar uma série de assassinatos. Bellodi, que desce ao Sul para fazer seu trabalho, aprenderá duas ou três coisinhas sobre a Sicília, sobre a Itália, e sobre a vida de maneira geral. Não seria demais dizer que essas breves 130 páginas de Sciascia contêm não apenas um romance policial, de leitura agradável, mas uma reflexão sobre os determinantes históricos da Itália, e mesmo sobre países que, em alguns aspectos, a ela se assemelham.
O enredo é simples. Um pequeno empresário, Salvatore Colasberna, é assassinado à luz do dia quando se prepara para tomar um ônibus num vilarejo siciliano. Quem o matou? Ninguém sabe, ninguém viu nem ouviu nada. Ao assumir o caso, Bellodi segue pistas tênues, que o levam a alguns suspeitos e estes, por sua vez, mostram conexões com peixes mais graúdos. Um romance convencional levaria ao esclarecimento de todas as relações, ao esclarecimento do mistério e ao restabelecimento da ordem.

Não em Sciascia. Quando lhe perguntavam qual sua contribuição à literatura, respondia que havia introduzido Pirandello no romance policial. Leonardo Sciascia (1921-1989), siciliano como Luigi Pirandello, adota esse toque pirandelliano ao evocar a lei do silêncio que paralisa a investigação. Ninguém nunca sabe de nada e apenas o medo mostra-se capaz de abrir caminhos. Será um informante da polícia, que já se sabe condenado por traição, quem deixará uma pista preciosa. Mesmo esta se mostrará insuficiente para conduzir à prisão dos responsáveis. Porque o clima pirandelliano levanta dúvida sobre a natureza do delito e a própria existência da organização criminosa. Em determinado momento, um político dirá que a máfia, na verdade, não passa de invenção dos comunistas… Como combater o que não existe? A luta de Bellodi é contra o vento.

Leonardo Sciascia escreve sobre a máfia sem glamour ou complacência. A máfia que emerge das linhas de O Dia da Coruja é uma organização tentacular, engloba o crime organizado e articula-se à política, à Igreja e ao Judiciário. Como se o Estado estivesse contaminado e a máfia o moldasse de acordo com suas leis e valores. Essa realidade se desenha a partir da longa conversa entre Bellodi e o capo Mariano Arena. Deságua na conclusão de Bellodi de que “a família é o Estado do siciliano”. Ao formalismo e à impessoalidade do Estado, o siciliano contrapõe as relações pessoais, os pequenos e grandes acordos, as conveniências e cumplicidades ditadas por uma “cordialidade” que, entre nós, foi descrita por Sérgio Buarque de Hollanda.

As silenciosas lições que Bellodi traz da Sicília lhe parecem tenebrosas, como se a ilha projetasse sua sombra no continente e sobre ele avançasse. Em sua Parma coberta de neve, ele reflete sobre algo que lera nos jornais. Os cientistas afirmam que a “linha da palmeira”, ou seja, o clima tropical propício ao desenvolvimento dessa árvore, sobe 500 metros em direção ao norte a cada ano: “Talvez toda a Itália esteja se transformando em Sicília.” Uma metáfora que poderia expressar preconceito do Norte em relação ao mezzogiorno, não fosse ela formulado por um siciliano de fina estirpe, e homem de esquerda ainda por cima.

Toda essa reflexão sobre as condições de possibilidade da civilidade são formuladas em prosa tão sóbria como depurada. Sciascia é conciso ao extremo, e usa enredo e recursos cinematográficos, como cortes abruptos e flashbacks. Escrito em 1960 e publicado no ano seguinte, O Dia da Coruja foi adaptado para o cinema em 1968 pelo diretor Damiano Damiani, tendo Franco Nero no papel do capitão Bellodi. O título se explica, se explicação for o termo, pela epígrafe tirada do Henrique VI, de Shakespeare: “…como a coruja quando comparece de dia.”

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