Saudade do Futuro vence o Festival de Brasília
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Saudade do Futuro vence o Festival de Brasília

Luiz Zanin Oricchio

15 de dezembro de 2021 | 17h11

Saudade do Futuro, de Anna Azevedo, ganhou o troféu Candango de melhor longa-metragem do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. É, de fato, um belo trabalho, que examina a palavra “saudade”, tão presente nos povos lusófonos, sem cair nas armadilhas românticas e linguísticas que dão aura idealista ao termo.

O filme visita três países – Portugal, Cabo Verde e Brasil. Entrevista pessoas das três nações e suas imagens mantêm-se sempre junto ao mar. Há, de fato, algo que nos reúne em torno dessa nostalgia difusa, que adota o formato original da saudade e propõe problemas às vezes incontornáveis aos tradutores da língua portuguesa para outros idiomas.

No que tem de mais interessante, o filme dá concretude ao termo, ouvindo, por exemplo, as crianças e sacando a maneira como elas o utilizam.

Há também uma acentuada presença feminina no longa. Três portuguesas, três cabo-verdianas e três brasileiras. Umas falando do luto, da perda do ser amado. Outras, lembrando que Cabo Verde é um país de imigração e que, portanto, as que ficam sentem falta dos que se vão. Por fim, a áspera política surge na fala de três brasileiras: uma, que viveu os tempos da guerrilha e perdeu seus próximos para a repressão; outra que teve seu filho morto numa batida policial. Por fim, a mãe da vereadora Marielle Franco, cujo assassinato até hoje não foi  esclarecido.

Não por acaso, no Brasil, a saudade se aplica nessas circunstâncias de violência contra a população, em particular nos crimes do Estado. Os corpos que não são devolvidos, não podem ser velados e encerrados; a injustiça que golpeia as camadas populares, sobretudo a população negra; o assassinato não esclarecido, mas de óbvia conotação política.

Esse entrelaço entre a saudade e o contexto já havia aparecido também num diálogo entre homens. Pescadores, que se lembram das guerras coloniais, onde os convocados podia optar por combater nas então colônias ou ir à pesca do bacalhau. Um deles descreve as saudades da família e também as condições de trabalho. Seis meses no havia sem pôr os pés na terra. Pesca no Mar do Norte com temperaturas de -20Cº. Meses sem tomar banho – “a nossa pele ficava igual a pele de foca”, diz um deles, não sem certa graça. Nada disso pode ser entendido foram de um contexto político bem definido – o salazarismo, o combate nas então colônias às lutas de libertação.

A premiação foi bastante dividida. Se Saudade do Futuro foi o grande e indiscutido vencedor do festival, outros filmes, comparativamente, receberam número maior de estatuetas. A ficção infanto-juvenil engajada Alice dos Anjos, por exemplo, levou seis Candangos – melhor filme pelo júri popular, prêmio da crítica (Abraccine), melhor direção, maquiagem, figurino e direção de arte.

Ela e Eu, de Gustavo Rosa de Moura, levou os Candangos de melhor atriz (Andréa Beltrão), ator (Eduardo Moscovis) e roteiro, do próprio diretor, com Andréa Beltrão e Leonardo Levis. As escolhas de atriz e ator eram mais ou menos obrigatórias, dada a parca diversidade de opções oferecidas ao júri.

Lavra, o extraordinário filme de Lucas Bambozzi, ficou apenas com o prêmio de melhor fotografia (Bruno Risas). Uma óbvia subavaliação dos júris (oficial, crítica e público), que parecem não ter percebido a importância e a qualidade da obra.

De Onde Viemos, para Onde Vamos, de Rochane Torres, ficou com o troféu de melhor filme com temática afirmativa, nova premiação criada este ano. Categoria talvez pleonástica, uma vez que as temáticas afirmativas tem encontrado guarida tanto nas comissões de seleção como nos júris. Enfim, um prêmio a mais.

Chão de Fábrica, de Nina Kopko, reafirma a premiação há pouco obtida no Cine Ceará e leva também em Brasília o prêmio principal na categoria de curta-metragem.

Na Mostra Brasília, o vencedor foi Acaso, de Luis Jungmann Girafa, que levou o troféu do júri oficial com sua estética do improviso. O longa concorreu também na mostra nacional.

A entrega de prêmios, em transmissão online, sofreu vários contratempos com a tecnologia. Marcado para 20h, teve de ser adiado para 23 h. Com novo atraso, a dupla de apresentadores Maria Paula e Murilo Rosa só deu início à cerimônia pouco antes da meia-noite. Houve homenagem à maravilhosa atriz Léa Garcia e, em seguida, o pajé Divino Xavante apresentou o filme de encerramento, de sua autoria. Por sorte, dado o avançado da hora, a entrega de prêmios foi sumária, sem agradecimentos dos vencedores. Senão, veríamos o sol raiar.

 

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