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Saravá, Boal!

Luiz Zanin Oricchio

17 de março de 2008 | 18h59

Claudia, uma habituée do blog, pergunta se não vou escrever nada sobre Boal. E quem sou eu para negar alguma coisa a ela? Acho a indicação de Augusto Boal para o Prêmio Nobel da Paz uma bela iniciativa política, embora com pouquíssima chance de êxito, já que ele vai concorrer com gente com muito maior chance de ganhar, como Nelson Mandela, por exemplo. Mas o simples fato de concorrer e ter seu nome em circulação, e o do Brasil, já vale. Nem tudo na vida se resume à vitória. Pelo contrário. Acho até melhor perder do lado certo que ganhar do lado errado. Era como se dizia na França: melhor errar com Sartre do que acertar com Aron. Bem, esta é outra história.

Lembro de Boal do Teatro de Arena, em especial de dois espetáculos, Arena conta Zumbi e Arena conta Tiradentes. Mudaram a minha maneira de ver o mundo. E daí?, vocês podem perguntar, e com razão. Mas para mim foi fundamental. Usava-se o sistema curinga, em que atores desempenham diversos papéis, e foi considerado um processo de aclimatação brasileira do teatro épico de Bertolt Brecht. Meu mundo se criou a partir dali – e de otras cositas más, é claro.

O Teatro do Oprimido de Boal é um teatro de resistência, pós AI-5, também brechtiano e incorporando as idéias de Paulo Freire. É, qualquer que seja a sua forma, um teatro que visa a discussão de idéias, a polêmica revitalizadora, a inserção da arte no mundo vivido, em seus problemas e impasses. Para mim, arte é isso, mas é uma impressão pessoal. Quem gosta de divertimento de Corte também deve ter suas razões.

O interessante é que o teatro de Boal, que foi para o exílio durante a ditadura, aclimatou-se bem em países do Primeiro Mundo como França e Canadá, se não me engano. É que, mesmo nesses países, a dominação existe, apenas é mais sutil. Por isso, o teatro e a filosofia precisam ser também sutis e desentocar o pensamento autoritário lá onde ele se esconde para poderem ser libertários. Boal fez isso no teatro; Foucault, na filosofia. Ambos gostam de trabalhar com prisões, manicômios, hospitais – as chamadas “instituições totais”, onde o poder se exerce de maneira mais nítida.

Para finalizar, uma nota. O teatro, no Brasil, e talvez no mundo, exibe hoje uma vitalidade que o cinema não tem, ou deixou de ter. Basta ver a atuação dos grupos teatrais da cidade de São Paulo, sua ação na praça Roosevelt, que é um exemplo de ocupação civilizada de um espaço público antes degradado. A antes inóspita praça tornou-se uma espécie de ágora contemporâneo, onde se discutem a urbe e as pessoas que a povoam. Nos palcos e nos bares. É um espaço de resistência. E que tem chamado a atenção das melhores cabeças, como o filósofo Paulo Arantes, que deu um excelente depoimento sobre esses grupos para a nossa amiga Beth Néspoli, que se ocupa da área no Caderno 2 com todo o brilho e competência. Publicamos há tempos esses textos no Cultura.

Sente-se no teatro essa politização (não partidária, favor não confundir) que um dia o cinema já teve e perdeu. Com sua preocupaçãozinha com o mercado, com as leis de incentivo, com a disputa miúda de verbas e de prêmios, o cinema esgotou-se. Não se mostra disposto a pensar sobre si mesmo e menos ainda sobre a vida e a sociedade onde ele existe. Tornou-se, com raras exceções, uma mônada distanciada da realidade. Aliás, tem horror manifesto ao mundo real.

Deveria dar uma olhadinha no exemplo do teatro. Ou, pelo menos, daquele certo teatro, que sempre será tributário de nomes como Boal, Zé Celso, Zé Renato, Guarnieri, etc e tal.

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