As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Santuário

Luiz Zanin Oricchio

08 de fevereiro de 2011 | 00h20

A boa notícia a respeito de Santuário, de Alister Grierson, é que faz uma boa utilização do 3D. Como se sabe, esse recurso, tido não faz muito tempo (na época de Avatar, para ser preciso) como a salvação da lavoura do cinemão, vem sendo banalizado a todo momento. Agora já parece mais um recurso como outros para atrair as pessoas para o cinema (quando todo mundo parece que prefere ficar em casa) do que uma inovação destinada a mudar os rumos da indústria. Santuário, desde as primeiras cenas, mostra que o 3D se integra à sua linguagem. Quer dizer, funciona de uma maneira que não se poderia, talvez imaginar o filme, sem séria perda, sem o uso desse expediente tecnológico.

A segunda notícia, e esta não tão boa, é que, se recursos tecnológicos são bem utilizados em Santuário, o mesmo não se pode dizer dos, digamos assim, recursos humanos – para utilizar essa expressão tão cara às corporações contemporâneas. Por exemplo, não se pode dizer que a história (o roteiro) seja construída de modo dos mais originais.

O que Santuário nos traz? Uma aventura como talvez já existam dúzias iguais, ou pelo menos muito parecidas entre si. Trata-se, nada mais nada menos, do que um grupo de exploradores que fica preso numa caverna e tem de buscar a saída em outra parte. Eles entraram pelo topo, mas este ficou inacessível em virtude de uma tempestade tropical. Têm, então, de buscar o escape por baixo, rumo ao mar, pois o tal santuário natural fica à beira do oceano. Ou seja, “contra-intuitivamente” (como hoje se diz), eles se veem obrigados a afundar cada vez mais em busca da salvação.

A aventura traz momentos de tensão, bem explorados pela câmera. Aposta menos em sustos do que numa atmosfera claustrofóbica; afinal os heróis estão enclausurados numa armadilha da qual precisam escapar mergulhando cada vez mais fundo e dependendo da existência de bolsões de ar para poder respirar. Funciona, para o que se propõe.

Há mesmo alguns ingredientes diferentes colocados na receita desse tipo de trama. Frank Maguire (Richard Roxburgh) é o chefe da expedição. Experiente, tipo autoritário, Frank tem relação complicada com o filho Josh (Rhys Wakefield), que lá chega com uma namorada. Os outros personagens compõem um grupo diversificado o suficiente para que os dramas possam surgir – o empregado heroico, que pensa mais no coletivo do que em si mesmo, uma mulher que entra em pânico, um egoísta que não hesita em prejudicar a todos para salvar a própria pele, etc. Enfim, é o drama do ser humano em grupo, levado ao seu limite e tentando preservar a vida mesmo a custo de alguns tabus morais. O tema será mais ou menos ou mesmo seja num barco à deriva, no isolamento de uma floresta após um acidente de aviação – ou, no nosso caso, no interior de uma imensa caverna invadida pela água.

Mas, claro, de todos os conflitos interpessoais, o mais marcante (por assim dizer) será aquele entre pai e filho. De algum lugar os roteiristas devem ter tirado essa certeza: em qualquer crise de imaginação, coloque uma disputa entre pai e filho e tudo passará a funcionar. Faz algum sentido. Há sempre alguma coisa que desafina entre o filho e a figura paterna – como já sabia um velhinho sabido de Viena, o nosso amigo Dr. Freud. Na maior parte das vezes, mamãe está no meio da briga. E isto, outro cara bem mais velho que

Freud também já sabia: um certo Sófocles, que viveu na Grécia antiga e escreveu uma peça chamada Édipo Rei. Bem, tudo isso para dizer que a complicada relação entre pai e filho (feita de amor e conflito) parece inscrita no imaginário profundo da humanidade. Daí que, de uma forma ou de outra, supõe-se que produza ressonâncias no espectador. Uma espécie de frisson ancestral, que faz com que se identifique mais com a história. E, portanto, acabe gostando do filme mais do que ele merece.

No mais, apesar das boas cenas de ação e tensão, e além desse expediente psicológico, Santuário fica apenas na rotina. Não é mau filme – dentro daquilo que se propõe, ser uma diversão limitada, feita de sustos e de algum incômodo psicológico causado pela aflição de passagens estreitas e pela falta de oxigênio.

Mesmo dentro dessas propostas limitadas, poderia ser mais imaginativo, encontrar caminhos mais desafiadores para o público. Não existiu essa preocupação. Esses limites denotam a própria timidez dos realizadores, produção incluída, junto com roteiro e direção. Ou, talvez, seja apenas aquela velha ideia preconcebida de que o público de fato não deseja nada além daquilo que já conhece e assimilou. Mais do mesmo, para resumir. Tecnicamente é bem feito. Mas o cinema deveria querer algo mais. Mesmo o cinema-pipoca.

Tudo o que sabemos sobre:

3DCinema americanocinema-pipocaSantuário

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.