Santa Paciência
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Santa Paciência

Luiz Zanin Oricchio

26 de maio de 2011 | 19h33

O que acontece quando alguém se julga um fiel muçulmano e descobre, por acaso, que é filho adotado e seus pais biológicos são judeus? Essa é a questão central da boa comédia Santa Paciência, do diretor Josh Appignanesi, e a revelação se abate sobre Muhmud Nasir (Omid Djalili), quarentão, casado, pai de dois filhos jovens e habitante de Londres.

Santa Paciência (The Infidel, O Infiel, no original) é aquele tipo de filme que escolhe a via do riso para melhor falar de um dos maiores problemas do mundo atual (na verdade, resquício do instinto cavernícola que dorme dentro de cada um de nós) – a intolerância. Os grupos amam a si mesmos e detestam os outros. Essa recusa da diferença toma a forma religiosa, na aparência, e se expressa na política, no frigir dos ovos. No caso, falamos daquela modalidade de intolerância que separa muçulmanos de judeus, abre frestas intransponíveis entre grupos e países e impede um mínimo de coexistência pacífica no caldeirão do Oriente Médio. Em nosso mundo, que se torna mais tribal à medida que se globaliza, esse tipo de obra é cada vez mais necessária.

Fazendo rir, ela coloca um pouco de perspectiva nas coisas. Combate a intolerância e o racismo atacando-os pelo ridículo. Nessas horas, um comediante (ainda mais quando talentoso como Djalili) revela-se mais eficaz que um teórico da paz e da convivência civilizada entre nações. A exposição ao ridículo pode ser mais letal para os preconceitos do que a crítica direta porque a intolerância é um ser noturno que não suporta a luz do dia e a claridade do riso.

Ainda mais, como no caso de Santa Paciência, quando o roteiro, bem imaginado, faz com que o muçulmano convicto e orgulhoso de suas raízes seja não apenas obrigado a rever conceitos, como a “aprender” de modo rápido a se passar por um judeu convincente. Para tanto, Mahmud é obrigado a tomar lições com um antigo desafeto, o taxista judeu Lenny Goldberg (Richard Schiff).

As sequências em um Bar-Mitzva são, talvez, as mais hilárias do filme. Não faltam outras, isoladas, que fazem o espectador rir, mas também pensar. E isso porque, ao armar sua história, o roteirista David Baddiel, um humorista judeu, joga com os preconceitos que separam os grupos. Fazendo com que preconceito se choque contra preconceito e um clichê anule outro, ele obtém esse efeito cômico arrasador, via absurdo. A direção de Appignanesi é eficiente e simples. A graça está no texto. E na maneira como é interpretado por Djalili.

Rindo, se castigam os costumes – conforme o velho adágio romano adotado por Molière e outros satiristas. A loucura humana causa pena, mas também faz rir, quando vista por certo ângulo.

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