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Sangue Negro

Luiz Zanin Oricchio

15 Fevereiro 2008 | 09h29

O tema da cobiça já rendeu obras-primas como Ouro e Maldição (1923) e O Tesouro de Sierra Madre (1948). Mesmo Cidadão Kane (1942), o maior filme americano de todos os tempos, pode ser entendido nessa chave. Em todos eles, de Stroheim a Huston, passando por Welles, predomina a crítica do princípio acumulativo, de dinheiro ou de poder, essas moedas intercambiáveis. Em todos, também, esse princípio leva o protagonista à destruição.

Ok, Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson, não é uma obra-prima, como as anteriormente citadas. Não marca um paradigma e nem revoluciona a linguagem do cinema. No entanto, é um belo e grande filme. Um épico trágico sobre a fase heróica da prospecção de petróleo nos Estados Unidos. Um drama, às vezes barroco, no entanto baseado no romance realista de Upton Sinclair, chamado simplesmente Oil!.

O filme daí tirado, Sangue Negro (no original There Will be Blood) é apenas o relato de uma tragédia pessoal, um homem engolido por sua própria cobiça? Afinal, o romance é de 1927. Ou pode ser também interpretado como alusão contemporânea da vontade de poder do império americano? Já que mesmo qualquer criancinha hoje em dia sabe das reais motivações da invasão do Iraque e da intervenção americana em outros países ricos de petróleo, fica difícil acreditar que se trate apenas de uma obra histórica, circunscrita no tempo e no espaço e limitada às condições daquela época. É mais ou menos o que tem declarado em entrevistas o diretor Paul Thomas Anderson, mas também se conhece a distância que existe entre as obras e o que seus autores afirmam sobre elas. Como diz Umberto Eco, o autor deveria morrer simbolicamente depois que o produto de sua arte alcança o público e deixar a ele, público, a tarefa de elaborar as interpretações possíveis.

Assim, parece claro que Anderson foi buscar essa história que se passa entre o final do século 19 e primeiras décadas do 20 para fazer um comentário sobre a nossa contemporaneidade. Escolheu a adaptação de um romance escrito por um longínquo socialista americano para tirar algumas lições sobre os rumos históricos adotados por seu país. Esse é um ponto.

O outro diz respeito à forma. Devemos interrogá-lo sobre a maneira como trabalhou esse tema. Sangue Negro apresenta a performance de um grande ator, Daniel Day-Lewis no papel de Daniel Plainview. A grande performance, ao contrário do que pensa quem só vê novelas de TV ou filmes médios, não é sinônimo de naturalismo. Day-Lewis não hesita em levar seu personagem dos matizes do realismo ao mais desbragado expressionismo, flertando às vezes com o abismo, com o exagero, quase com a caricatura. Não nos sentimos mal com isso e nem nos desprendemos do pathos que a obra e seu intérprete nos provoca. E por quê? Porque toda a concepção – visual e sonora – de Sangue Negro nos conduz para essa direção. Day Lewis a acompanha. Segue a partitura.

Em muitos momentos Sangue Negro tende ao operístico. Não apenas pelo nível de interpretação exigido dos atores, de Daniel Day-Lewis em especial, mas pela colocação da trilha sonora. Bastante presente, no princípio a música pode incomodar quem pede um pouco de silêncio ao cinema. Mas depois se percebe que a presença maciça do som tem função não apenas reiterativa, mas de comentário. E, às vezes, de comentário irônico, distanciado, como nas pesadas seqüências finais.

Sangue Negro é uma tragédia da cobiça. Elege como personagem esse Daniel Plainview como aquele homem que sai do nada, constrói-se por si só e chega ao fim da linha como alguém que tudo tem e nada tem.

Como boa árvore, o filme tem esse tronco central e espalha ramos em algumas direções. Subtemas como o relacionamento entre pai e filho, a posição do personagem em relação à família, a questão da religião e, sobretudo do fanatismo religioso, enriquecem demais esse concorrente ao Oscar de melhor filme. Funcionam como peças de um delicado mecanismo que revela (sem demonstrar de maneira didática) a alienação e perdição do personagem. Nesse ponto, como em outros, a atuação de Day-Lewis é muito boa. Transformando-se, inclusive fisicamente, e mesmo na postura, em personagem de Dickens, ele se deixa entrever menos por aquilo que declara do que por ações e gestos. É dono de um gestual trágico, quebrado como uma alma seca, que gesticula contra um pano de fundo duro, de tons ocres, uma terra hostil, da qual nada brota, a não ser óleo e ódio.

(Caderno 2, 14/2/08)