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Saneamento Básico, o Filme

Luiz Zanin Oricchio

25 de julho de 2007 | 13h39

Por que o novo filme de Jorge Furtado se chama Saneamento Básico? Bem, a expressão faz parte da história, que convém começar a esmiuçar um pouco. Ela se passa numa pequena cidade da Serra Gaúcha, ao contrário dos outros dois longas de Furtado, os urbanos Meu Tio Matou um Cara e O Homem Copiava, e de Era uma Vez dois Verões, história adolescente ambientada numa praia. Pois bem, nessa cidadezinha, bucólica, local de imigração italiana, há um problema, a construção de uma fossa séptica, que resolva o problema do esgoto a céu aberto, “que fede no verão”. A prefeitura não tem dinheiro. Mas há uma grana lá, mandada para a produção de um filme (ou vídeo), num desses programas federais que financiam filmes em cidades de até 200 mil habitantes. É fazer o filme ou devolver o dinheiro. Detalhe que será importante: a verba é para filme de ficção e para documentário.

Logo, o casal Marina (Fernanda Torres) e Joaquim (Wagner Moura) descobrem que está aí a excelente oportunidade de financiar a obra com o dinheiro do filme. A irmã de Marina, Silene (Camila Pitanga) é casada com Fabrício (Bruno Garcia), que tem uma câmera. Está tudo arranjado. Basta escrever o roteiro (necessário para que o dinheiro entre), escalar o elenco e rodar a história. O que é mais fácil de falar do que de fazer. Há aqui umas pequenas pinceladas sobre o fazer cinematográfico, o próprio roteirista (Jorge Furtado, também) cometendo sua pequena ironia sobre a ignorância do público (e da crítica) sobre a maneira como filmes são feitos. Por exemplo, a roteirista de primeira viagem Marina escreve a frase seguinte: “Uma brisa refrescante traz do vale o aroma das corticeiras em flor”. Frase de perfume proustiano, mas…e daí? “Como é que você vai filmar isso”, pergunta Joaquim, apanhando um erro comum em todo iniciante. Audiovisual não é romance, é outra coisa.

No processo, porém, eles vão aprendendo. Marina indica que, em determinado momento, o monstro (sim, há um deles na história) olha a personagem de Silene sem ser notado. Como fazer isso?, insiste Joaquim, mais uma vez. Ora, colocando a câmera no ponto de vista do monstro. Quer dizer, fazendo uma “subjetiva”, que é como se diz em linguagem técnica.

Saneamento Básico é feito de pequenos achados como estes. Nota-se que nasceu de um roteiro pensando, bem-amarrado, e muito consciente. Quando Joaquim se queixa de que o roteiro está cheio de frases infilmáveis, Marina responde que “encheu lingüiça” um pouco porque a portaria diz que precisa ter no mínimo 10 páginas. E roteiro não serve para nada, só para pegar o dinheiro, uma piada cínica, recorrente entre cineastas que, em busca de dinheiro oficial, ou em concursos públicos, são obrigados a apresentar roteiros que não têm a mínima intenção de seguir, se vierem a filmar. Como o filme é de ficção, os “cineastas” sabem que não podem documentar a construção da própria fossa, o que resolveria todos os problemas. Confusos com a palavra, entendem que se trata de ficção científica, ou “filme de monstro”, daí a presença desse ser exótico que solta fogo pelas narinas e será um dos personagens. Mais tarde, um cineasta profissional (Lázaro Ramos) será chamado para dar um acabamento e conduzir o trabalho ao seu destino natural transformá-lo em cult movie, já que hoje o trash dispõe de um status todo especial.

Saneamento Básico, se for preciso defini-lo, ajusta-se a uma comédia romântica e satírica, gênero bastante testado na televisão. O pressuposto é que a proximidade a uma linguagem com a qual o grande público está habituado (para não falar no elenco familiar em novelas e programas) irá atraí-lo para o cinema. A testar.

Essa equação mercadológica determina a linguagem do filme. A ordem é não introduzir elementos perturbadores da comunicação, tais como movimentos de câmera inusitados, descontinuidade no texto narrativo, saltos de montagem, complexidade dos personagens, etc. Mesmo o recurso metalingüístico é usado com parcimônia, em registro já aceito pelo gosto médio brasileiro.

Por outro lado, Saneamento Básico é exemplo acabado do ‘pragmatismo’ detectado pelo crítico Ismail Xavier em determinadas produções. Ele as associa ao pragmatismo do próprio governo Lula, o ‘fazer o que for possível’, expurgando a intervenção no real de qualquer dimensão utópica. Assim, em Saneamento temos, ao mesmo tempo, a denúncia da estrutura comprometida de financiamento ao cinema, e a aceitação, com êxito, dessas mesmas regras do jogo. Não cabe aos jogadores contestar regras e sim atuar dentro do campo que lhes é proposto. Se para conseguir o que seria de direito (condições sanitárias mínimas) for preciso trapacear com leis de incentivo, tudo bem e vamos em frente.

Também é preciso dizer que existe aí uma sutileza, que procura desmontar o eterno dilema: como se justifica o dinheiro público aplicado em cultura em um país como o Brasil? Sabemos a resposta. O País, se quiser crescer mesmo, tem de investir tanto na construção de moradias populares como no incentivo à leitura e à feitura de filmes. Nessa visão estratégica, o feijão é tão imprescindível quanto o sonho. Essa é uma discussão que se precisa levar e, de preferência, sem preconceitos. Ela está nas entrelinhas deste filme inteligente, porém de baixo impacto pelas limitações auto-impostas de repertório cinematográfico.

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