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Sandra ganha o Oscar e republicanos vão à forra

Luiz Zanin Oricchio

19 de março de 2010 | 10h12

Hoje nos perguntamos por que esse papel em O Sonho Possível deu a Sandra Bullock o seu Oscar. É um efeito de análise retrospectivo, baseado naquele raciocínio de que os filmes não ganham prêmios porque são bons, mas são bons porque ganham prêmios. Dessa maneira, o filme de John Lee Hancock ficará como aquele que deu oportunidade de transformação da namoradinha da América em atriz digna de um Oscar. Independente de sua qualidade

Um Sonho Possível trata de uma história edificante, e que não deixa de ter suas implicações políticas. Mais: é um daqueles filmes baseados numa “true story”, o que, perante o público, lhe confere grau de veracidade acima de qualquer questionamento. Aconteceu na vida real, o cinema apenas faz o relato do fato. E qual seria o fato? Um rapaz negro, pobre, desajeitado, mas muito bom em determinado esporte (o futebol americano), é adotado por uma republicana rica, loura e mandona – Bullock, claro.

Leigh Anne Tuohy é o nome da personagem de Sandra, num filme concebido e realizado para seu brilho como atriz. E, de fato, ela tem lá seus momentos intensos, embora o tipo que encarne ronde o clichê o tempo todo. Ela está acostumada a dirigir a vida do marido e dos filhos e agora assume o controle do destino de Michael Oher (Quinton Aaron), o garotão desamparado e talentoso como quarter-back, a mais nobre posição no futebol americano. Leigh Anne controla para o bem do controlado. Ela sabe melhor do que qualquer um a direção a seguir e assume o timão em todos os aspectos da vida, com pequeno espaço para opções individuais. Mesmo assim, reserva-se um grau mínimo de autonomia para o garoto negro, pois, afinal, estamos na América, etc.

Como a dizer que: 1) existem conservadores bem-intencionados; 2) dependendo das circunstâncias, eles podem ser melhores do que gente dita progressista; 3) seres antissociais devem ser enquadrados na base da força para que não perturbem pessoas de bem; 4) essa história de democracia e tomada autônoma de decisões, deve ser relativizada. Precisamos saber o que é melhor para as pessoas e conduzi-las, mesmo que pareçam fazer suas próprias escolhas.

Esse é o ideário de Leigh Anne e dá contorno ideológico ao filme. Que, como se disse, tem lá seus momentos, mas é bastante problemático em qualquer aspecto que se pense.

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