As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Samba disputa espaço com futebol

Luiz Zanin Oricchio

30 de abril de 2009 | 18h08

RECIFE

Um Homem de Moral é mesmo o título que define o dublê de sambista e zoólogo Paulo Vanzolini, personagem desse belo documentário de Ricardo Dias. O filme não teve casa cheia, prejudicado pelo futebol. Sim, na quarta, jogavam os dois times rivais da cidade: o Náutico enfrentava o Internacional pela Copa do Brasil e o Sport tinha ido a Quito para jogar contra a LDU pela Libertadores. O Sport ganhou e o Náutico perdeu. Mas perderam também os que deixaram de entrar no cinema para acompanhar a partida do Sport, que era transmitida por um telão na praça de alimentação do Cine Teatro Guararapes.

Com tal concorrência, até que o publico era bom – cerca de mil pessoas, que parecem muito menos quando instaladas em um cinema com capacidade para 2.400 e, nas noites mais badaladas, chega a abrigar 3 mil pessoas entusiásticas. Mas, enfim, esse público possível acompanhou com muita alegria e atenção a trajetória de Paulo Vanzolini que se viu na tela. Um

Homem de Moral é um filme que aposta muito na música. Os sucessos de Vanzolini aparecem de maneira completa no filme, que traz também composições menos conhecidas. O próprio autor conta a história de cada uma de suas músicas. Como, por exemplo, da mais popular, Ronda, de quando ele estava no exército e fazia a patrulha do centro de São Paulo, na zona do baixo meretrício. “Cansei de ver mulheres que espiavam para dentro dos bares, à procura de alguém, e depois iam embora”. O resto da história, ele podia imaginar: a mulher atrás do seu homem, noite adentro, etc. E a música saiu do jeito que todos conhecem: “De noite eu rondo a cidade/a te procurar/sem te encontrar”, etc.

Vanzolini, um mal-humorado militante, mas cheio de ternura pelo próximo, parece ter esse dom de perceber o sofrimento alheio, os males de amor, e colocar esses sentimentos em sua música. Composições que, ele conta, começam sempre com uma frase que lhe vem à cabeça, junto com a linha melódica. O resto é trabalho, e duro. Tentando encaixar os versos, prestando atenção nos tempos fortes e fracos, no ritmo das palavras.

Poesia é isso. Inspiração e transpiração. Vanzolini conta que colocar versos em melodia alheia ainda é mais sofrido. Ainda mais quando se trata de um clássico como Pedacinhos do Céu: Vanzolini passou 25 anos compondo a letra para o choro clássico de Waldir Azevedo.

Há outras histórias muito engraçadas. Vanzolini conta que Ronda é a música mais tocada em karaokês. “Japonês com dor de corno vai para o karaokê e já sai cantando Ronda. O hábito no karaokê é escrever a música desejada em papéis, que são passados a quem controla a engenhoca; o engraçado é que muitas vezes os japoneses escrevem Honda e não Ronda”, conta Vanzolini, caindo na gargalhada.

O filme procura dar um panorama amplo da obra musical e também um perfil rápido do personagem. Talvez os traços sejam suficientes para quem já o conhece. Pode ficar faltando informação biográfica para quem dele apenas conhece os maiores sucessos, como Ronda e Volta por Cima. Mas a idéia principal, a de expor o letrista sensibilíssimo, o intelectual antenado com o povo, o homem sem frescura e sem retórica, o artista inspirado, essa é cumprida pelo filme. Um Homem de Moral mostrou empatia com a platéia e foi muito bem recebido, com aplausos durante a exibição e no final. Pena que Vanzolini não tenha vindo, pois, com 85 anos, está proibido pelos médicos de viajar de avião.