Salve Geral – o que pode ser dito…e o que não pode
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Salve Geral – o que pode ser dito…e o que não pode

Luiz Zanin Oricchio

02 de outubro de 2009 | 18h14

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Denise Weinberg e Andréa Beltrão em Salve Geral

É provável que Salve Geral seja avaliado menos por suas virtudes ou defeitos cinematográficos que por suas implicações éticas e políticas. O diretor Sérgio Rezende devia saber que estava mexendo com caixa de marimbondo porque falar dos ataques do PCC em São Paulo no Dia das Mães de 2006 é colocar o dedo em ferida aberta. Sempre se soube que a Capital era uma cidade violenta e que vivia mais ou menos à mercê de bandidos. Mas como, diferentemente do Rio, São Paulo ainda consegue manter zonas “higienizadas”, este fato foi sempre mantido sob silêncio. Naqueles dias terríveis de maio essa mitologia foi para o espaço.

Daí que, para ser palatável, Salve Geral teria de fazer aquilo que sempre se pede para evitar – a transformação de personagens em caricaturas. E, além disso, seria preciso trabalhar com trama linear, óbvia, com encadeamentos lógicos e sustentados por uma causalidade simples. Como a vida, e também a arte, são mais complexos, Rezende optou por outro caminho. Se o comportamento de Lúcia (Andréa Beltrão) parece errático, contraditório e às vezes desvairado, para entendê-lo será preciso levar em conta aquilo que o move – o desespero de tirar o filho da prisão. Se os bandidos do PCC são vistos sob um ângulo um pouco mais multifacetado é porque seres humanos delinquentes também podem apresentar nuances de personalidade. O fato de temê-los não pode embotar nossa inteligência a ponto simplificá-los para que pareçam mais previsíveis do que na realidade são.

Também não fica bem ter mostrado as más condições da vida carcerária e vê-las como possíveis focos de rebelião. Ou ter mostrado cenas de corrupção policial ou de um suposto acordo que teria ocorrido entre o PCC e as autoridades para que os ataques cessassem. Como você sabe, nada disso existe ou existiu. Pelo menos não existe na medida em que calamos e fingimos esquecer. Ou seja, decidimos que há coisas de que podemos falar e outras que será melhor empurrar para debaixo do tapete. Salve Geral prefere expor a sujeira. Mesmo porque não é escondendo o lixo que se faz a faxina da casa.

Do ponto de vista cinematográfico, Salve Geral segue estratégia comum no cinema de Sérgio Rezende – coloca em primeiro plano um drama familiar para pôr em relevo um fato histórico. Já fizera isso em Guerra de Canudos. Assim, a empatia do espectador dependerá da sua capacidade de se identificar com o drama da professora de piano vivida por Andréa Beltrão. Ela é uma viúva de classe média que já conheceu dias melhores. Quando seu filho vai preso, vê-se na necessidade de arrumar dinheiro. E essa contingência a leva a cruzar a linha fina que existe entre a lei e o crime. Talvez esse seja um aspecto adicional do incômodo: Lúcia é uma espécie de “emissária” da consciência da classe média ao mundo do crime.

Essa imersão num ambiente que lhe parece tão assustador como fascinante não se dá sem problemas. Às vezes tudo parece muito fácil e rápido, o que é um problema de roteiro mais que da atuação sempre intensa de Andrea. Seu relacionamento com Ruiva (vivida pela brilhante Denise Weinberg) é um dos pontos altos da história, embora também muitas vezes não passe pelo teste da verossimilhança: como uma escolada advogada do PCC depositaria tanta confiança numa novata? Mas são vacilos circunstanciais. Não diminuem a integridade de um filme que deveria ser visto não como fonte de irritação mas ponto de partida para reflexão. Afinal, o crime nasce da sociedade e não de um mandato punitivo de deuses cruéis.

(Caderno 2, 2/10/09)

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