Salas de rua *
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Salas de rua *

Luiz Zanin Oricchio

01 de outubro de 2013 | 20h03

Hoje pode parecer inacreditável, mas a iniciação ao cinema das gerações, digamos, mais experientes, se fez inteiramente pelas salas de rua.

Era muito comum que pais levassem os filhos para conhecer a então chamada “sétima arte” em cinemas chiques como o Marrocos, o Metro, o Paissandu ou República. Todos, ou quase todos, situados no centro velho, na época ainda longe do território comanche em que se tornou. Pelo contrário, o centro era a área de convivência da cidade. Seu fórum. E os cinemas, polos importantes dessa sensação de estar junto, característica maior da vida em sociedade.

As salas espalhavam-se por diversos pontos daquele já extenso centro da cidade. Havia várias na rua Augusta, a mesma que abriga hoje duas das poucas salas sobreviventes – o Espaço Itaú e o Cinesesc. Naquele tempo, o Espaço era o Cine Majestic. Mais abaixo, em direção ao centro propriamente dito, havia o Marachá, que, programado por Alvaro de Moya, fez história na cidade.

Grandes salas suntuosas, como o Marrocos e o Marabá, conviviam com outras, menores, mais voltadas ao cinema dito “de arte” – termo surgido nos anos 1960 para distinguir as “fitas” de empenho artístico das meramente comerciais. Fizeram história os cines Coral e Bijou, por exemplo, nos quais se exibiam filmes de Fellini, Godard, Truffaut e eram frequentados pela intelligentsia paulistana, no tempo em que esta também florescia.

Claro que os cinemas de rua existiam também nos bairros. Um exemplo típico de foram as imensas salas do bairro da Liberdade, no qual vivia a comunidade japonesa. Cinemas como Niteroi e Joia, além de atender aos anseios nostálgicos dos imigrantes, foram responsáveis pela incorporação do cinema japonês ao repertório cinefílico da cidade.

A maior parte dessas salas, tanto as do centro como as dos bairros, foi sucumbindo às transformações da cidade e também às modificações do público. O centro deteriorou-se. Os bairros adensaram-se. A especulação imobiliária avançou, encareceu os imóveis e tornou inviável a manutenção do negócio para exibidores. O golpe mais recente veio com o fechamento do Cine Belas Artes, na rua da Consolação. O Belas Artes, criado pelo mesmo programador do Cine Coral, Dante Ancona Lopes, tornou-se referência pela qualidade dos títulos exibidos. O paulistano ia ao Belas Artes sem consultar a programação tinha certeza de encontrar sempre algo bom para ver. Depois da sessão, atravessava a rua para discutir o filme no Bar Riviera, em torno de uma mesa de chope. O Riviera fechou antes do Belas Artes. É uma ironia ver o bar agora reinaugurado sem a companhia do seu primo fraterno, o cinema que ficava em frente.

O fato é que a cidade é outra e os cinemas de rua foram praticamente varridos da cena urbana. Hoje a maior parte das salas situa-se em shoppings. É a mesma coisa? Não é. Shoppings, como diz o nome, são lugares de compras, não de convivência. As pessoas estão lá de passagem e são tratadas como consumidoras, não como cidadãs. Vão ao cinema, tomam um lanche, percorrem lojas, compram ou não, pegam o carro no estacionamento, voltam para casa.

Já o cinema de rua pode pertencer à iniciativa privada, porém se encontra na fronteira com o espaço público, com sua frequência mais diversificada e o criativo caos característico de toda metrópole. A rua, com seus encantos e perigos, é o oposto do ambiente pasteurizado do shopping. Difícil imaginar um longo debate sobre um filme numa lanchonete de shopping. Pode até acontecer, como exceção, mas shopping e reflexão estética ou política são termos por natureza incompatíveis. Não casam.

Por isso mesmo é vital a preservação dos poucos cinemas de rua ainda existentes. São reservas ecológicas de civilidade numa cidade perdida de si mesma.

* Esse artigo saiu no Caderno 2 como texto de apoio à reportagem sobre os 20 anos do Espaço Augusta 

 

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