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Saga dos candangos: documentário ou ficção?

Luiz Zanin Oricchio

22 Novembro 2006 | 14h05

Tivemos um debate dos mais interessantes com Manfredo Caldas e equipe do filme de abertura do festival, Romance do Vaqueiro Voador. Ontem, na platéia do Teatro Nacional, tive a impressão de que o filme agradou ao público. Normal: cerimônia de abertura, com direito a apresentação de orquestra (Bachianas Brasileiras nº 5, quer coisa mais ligada ao cinema que ela?), perspectiva do coquetel lá fora, reencontro de gente que não se via há muito tempo, etc. Clima cordial, que beneficia uma obra que afinal fala do mito fundador da cidade e deve dizer respeito aos seus habitantes.

No dia seguinte, o papo é outro, porque é preciso debater o que se fez. E essa conversa sobre os modos de construção do cinema foi muito legal, mesmo. Porque o filme, bom ou ruim, goste-se dele ou não, dá lugar a uma discussão muito atual para o cinema. Por exemplo, um tema que se impõe: é documentário, ficção, ou a fronteira entre um e outro já não existe mais?

Explico. Romance do Vaqueiro Voador é baseado num poema de João Bosco Bezerra Bonfim sobre a saga dos nordestinos que vieram construir Brasília e se transformaram em candangos. Acontece que a construção de Brasília se deu em ritmo acelerado, pois Juscelino queria entregá-la ao final do seu mandato. Mais do acelerado, o ritmo era alucinado. Operários viravam noites erguendo prédios. E, pelo que se sabe, houve muitos, muitíssimos acidentes de trabalho, fatais. Causados pela falta de segurança, aliada ao excesso de trabalho. Tudo isso foi escondido durante muito tempo. Começou a vir a tona em filmes anteriores, como Conterrâneos Velhos de Guerra, de Vladimir Carvalho.

Acontece que Romance do Vaqueiro Voador, que dialoga com os filmes de Vladimir, usa técnicas de ficção para relatar essas condições de trabalho. Música para dar tom épico, depoimentos de trabalhadores e cenas de acidentes posteriores são mesclados para se referir à mortandade que ocorreu durante os anos de construção da nova capital. Por exemplo, a cena chocante de um operário morto sendo desenterrado é colocada quando se está falando da época da construção de Brasília. Acontece que essas imagens pertencem a um acidente de trabalho ocorrido já nos anos 70. São usadas, digamos assim, com significantes puros, sem referência real com o que está se falando, mas com uma profunda referência contextual. É válido fazer isso? Ou pode manipular sentimentos do público? Bem, pelo menos tudo isso dá uma senhora discussão, longe de se encerrar.