Rumba no ritmo de Jacques Tati
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Rumba no ritmo de Jacques Tati

Luiz Zanin Oricchio

27 de fevereiro de 2009 | 10h38

rumba

Dom e Fiona formam o que parece ser um par perfeito. Ele é professor de ginástica; ela, de inglês. Ensaiam e se preparam para um concurso de dança, no qual apresentam a coreografia de um ritmo latino. Mas um acidente irá mudar a vida da dupla.

Dom e Fiona são interpretados pelo belga Dominique Abel e pela canadense Fiona Gordon. Eles mesmos dirigem o filme. E são casados na vida real. Tudo é parceria e cumplicidade nesse projeto que sai fora do quadro normal dos lançamentos comerciais. É uma comédia sui generis. Não tem apelação, nem cenas de sexo ou palavrões. Nem mesmo subentendidos maliciosos. É quase um filme pudico, se essa designação não tivesse hoje um caráter pejorativo.

Isso é tudo o que o filme não é. Mas se uma aproximação pode ser feita é com o estilo de Jacques Tati, com seu humor, digamos assim, gráfico. Feito de movimento, de leveza e poucos diálogos. Há uma confiança na imagem em um cinema feito desse jeito.

Fiona e Dominique vão por esse caminho. Mantêm a graça na maneira apaixonada como o casal se apresenta ao público, em namoro permanente. Graça no jeito como dançam e harmonizam seus movimentos. Depois, como se aguentam quando a situação muda e se encaminha para desdobramentos inesperados, para não dizer esquisitos. Não há dúvida: trata-se de um humor muito particular, mas que parece encontrar boa resposta de público, pelo menos pelo que se tem visto nas pré-estreias.

Parece que as pessoas têm se encantado não apenas com aquilo que o filme sonega, isto é, uma expectativa de grosseria em relação à comédia mais vulgar, mas por aquilo que ele é. Uma vez assimilada a premissa de que não haverá nada de muito explícito, o negócio é entrar na proposta e “ler” nas entrelinhas ou simplesmente deixar-se levar pelo encanto da coisa. Ou seja: naquilo que não é dito e fica apenas sugerido pelo rico gestual da dupla.

Nem tudo é perfeito e a aproximação com Tati não deve ser levada ao pé da letra. O Tati de Meu Tio ou As Férias de Monsieur Hulot era coisa de gênio. A comparação é apenas pela aproximação de estilos, porque em Rumba nem tudo funciona nesse esquema ousado do cinema que se faz do esquecimento dos diálogos. Por exemplo, é muito engraçado ver o casal trocando de roupas dentro de um carro em movimento. Mas a mulher tentando se virar com muletas recém-adquiridas, e derrubando tudo ao seu redor, é menos cômico que exasperante.

O saldo, no entanto, é muito positivo. Rumba é um filme original, inspirado, com ótimos momentos. Conta a mais velha e bonita das histórias da humanidade – a de um verdadeiro caso de amor. E o faz com ternura. E graça.

(Caderno 2, 27/2/09)

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