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Roupa apertada

Luiz Zanin Oricchio

12 de junho de 2012 | 08h57

O péssimo desempenho dos clubes paulistas nesse inicio de Brasileirão aponta para uma verdade que não quer calar: nenhum clube brasileiro tem elenco para enfrentar duas competições ao mesmo tempo. Ou encaramos esse fato ou todo ano será a mesma coisa, com a principal competição nacional prejudicada pela concorrência com as outras.

E, claro, também há a seleção. Vários clubes foram prejudicados pela ausência dos seus principais jogadores durante esses quatro amistosos.

Sim, a seleção tem seus compromissos e há uma Copa do Mundo pela frente. Mas a verdade é que os clubes estão sendo prejudicados e o Campeonato Brasileiro também. O sintoma foi esse San-São esvaziado, muito ruim tecnicamente e com público pífio. Pouco mais de seis mil pessoas se deslocaram ao Morumbi para assistir a uma partida que nem Santos nem São Paulo queriam jogar. O torcedor não é burro, embora seja tratado como tal. Ele dá o troco se ausentando.

É preciso então reformar o calendário para que não haja essa sobreposição de jogos, de competições diferentes e de compromissos conflitantes. O futebol brasileiro é como um corpo que engordou e já não cabe mais no terno que vestia tão bem na juventude. Ou faz um regime a sério ou tem de encomendar roupa nova. Talvez tenha de fazer as duas coisas.

Primeiro, a roupa nova, ou seja um calendário mais condizente com o futebol moderno. Queiramos ou não, vamos ter de, um dia, alinhar nosso calendário ao europeu. Por mais que a tendência ao êxodo de jogadores seja revertida, sempre haverá, no futebol “globalizado”, um considerável número de brasileiros jogando lá fora. Será preciso emparelhar as temporadas para que dano seja menor. Sim, há diferenças de estações climáticas, singularidades culturais e a TV é contra. Mesmo assim, há que se pensar em maneiras de caminhar para uma sintonia maior.

Além disso, não dá para embolar tantas competições uma em cima da outra – Campeonatos regionais, o Brasileiro, a Libertadores, a Copa do Brasil, etc. Não há quem aguente; não existe quem tenha foco para manter o interesse em tantos objetivos divergentes, nem torcida, nem jogadores. Esse volume não é humano.

Poderíamos também “emagrecer” o futebol, submetê-lo a uma dieta rígida. Seria a solução ideal. Menos jogos, mais tempo para treinar, atletas mais bem preparados e motivados, torcidas mais interessadas porque tudo que é raro entusiasma e tudo o que vem em excesso cansa. Mas, para ser franco, descreio da eficácia da dieta. O paciente não tem força de vontade. Não há, no mundo atual, spa que dê conta de moderar a volúpia de lucro das partes envolvidas. O futebol, como outros esportes, nada mais é que um ramo particular da indústria do entretenimento. Essa mesma que despeja filmes, discos, livros, espetáculos e tudo o mais em quantidades industriais sobre as nossas cabeças. A qualidade é inversamente proporcional à quantidade, mas o capital tem de girar.

Sei que é difícil, mas alguma coisa tem de ser feita. O jogo do Morumbi foi um alerta. Entre tantos outros.

* Coluna Boleiros, publicada no Caderno de Esportes do Estadão

 

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