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Rossellini e a república italiana no pós-Guerra

Luiz Zanin Oricchio

15 de novembro de 2009 | 19h14

Muitas nações costumam falar de um início absoluto quando saem de uma catástrofe histórica. Poucas, como a Itália, teriam tanta razão para isso. Ao término da 2ª Guerra Mundial não era apenas uma derrota que deveria ser administrada, mas toda a herança funesta do fascismo. Era preciso recomeçar do zero , exorcizando fantasmas que sobreviviam a Mussolini e tentando harmonizar forças contrastantes que emergiam no país. É desse processo que trata Anno Uno, de Roberto Rossellini (1906-1977), o mais importante nome do neorrealismo – noutras palavras, alguém que participou dessa reconstrução italiana com seu cinema inovador.

Anno Uno (Versátil, R$ 44,90), contudo, data de fase posterior. Com o cinema, segundo Rossellini, condenado a se repetir, ele preferiu dedicar-se à televisão, esta sim o novo veículo, o futuro. Através de filmes feitos para a TV, nos anos 70, exercitou sua veia pedagógica. Tornou-se um professor, porém não um mestre disposto a dar lições definitivas. Ele acreditava que deveria transmitir o máximo possível de informações e deixar que os “alunos”, os espectadores, pudessem tirar as próprias conclusões.

Não se tratava, no caso, de fazer “obras abertas”, no sentido teorizado por Umberto Eco. Este falava em obras esteticamente ambíguas em sua própria linguagem, e que, por essa ambivalência constitutiva, ofereceriam possibilidades de um número maior de interpretações. A abertura proposta por Rossellini era de outro nível, mesmo porque sua linguagem cinematográfica é cristalina. Nos seus filmes didáticos, ele parece retirar-se como autor e esquivar-se de impor um determinado ponto de vista. Limita-se aos fatos e deixa que eles falem por si.

O tema de Anno Uno (1974) é a trajetória de Alcide De Gasperi, democrata-cristão e primeiro-ministro da Itália no pós-guerra, durante o período de 1945-1953. O mais interessante é ver a maneira como De Gasperi costura o leque de apoios necessários para montar um governo estável na república: tem de encontrar um mínimo múltiplo comum entre todas as forças que haviam lutado contra o fascismo durante a guerra e iam da extrema-esquerda até liberais de vários matizes, passando por socialistas e comunistas. Pelos diálogos, nota-se a dificuldade de desenredar os nós de uma Itália confusa, polarizada, que nasce no pós-guerra e sobrevive, em muitos aspectos, até hoje.

Anno Uno adota opções usadas por Rossellini em seus outros filmes “didáticos”, como o uso de extensos diálogos, quase literais, tirados ora de obras literárias, ora de discursos e biografias. Quem se habituou à proposta naturalista do cinema atual pode estranhar. Afinal, hoje todo o mérito é dado ao coloquial. Em Anno Uno, como nos filmes sobre Sócrates, Pascal, Descartes e Agostinho, filósofos perfilados por Rossellini, a fala parece literária. De Gasperi era um mestre da costura de forças contrárias, um conciliador nato. A explicitação dessa arte da política é o que a obra de Rossellini tem de melhor.

O DVD é completado por dois extras de qualidade. O primeiro traz cinejornais de época sobre a trajetória de Alcide de Gasperi (1881-1954), da juventude obscura até sua atuação decisiva na unificação do país. O segundo extra é um documentário chamado Rossellini por Rossellini, com o diretor falando de sua obra e de sua visão de mundo. Uma pequena lição de cinema – e de humanismo. Nela, Roberto Rossellini manifesta sua surpreendente profissão de fé: “Ser cineasta, pintor, escritor ou qualquer espécie de artista não é nada; o difícil mesmo é tornar-se um homem.” Ele se empenhou nessa construção de si mesmo ao longo de toda a sua vida.

(Cultura, 15/11/09)

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