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Romário: mil gols e mil e uma noites

Luiz Zanin Oricchio

14 Fevereiro 2007 | 09h49

No domingo ele fez três, apesar de ter entrado apenas aos 21 minutos do segundo tempo. Agora, pelas suas contas, faltam apenas 10. Na verdade, estou apenas me antecipando: o que faremos quando Romário marcar seu milésimo gol?

Será que nos esqueceremos da maneira como esses mil gols foram conquistados e contra quais adversários? Vamos comemorar esse número assim mesmo? Ou, pelo contrário, será que iremos desmerecer uma carreira estupenda só porque ela foi conspurcada justamente pela obsessão dos mil gols? Porque uma coisa estará em relação à outra. Teremos de falar sobre quem é, ou quem foi, esse atacante de mil gols.Teremos de fazer um perfil para o Romário, como se faz para todo aquele que realiza um grande feito.

Na avaliação dele próprio, Romário só estaria abaixo de Pelé e Maradona. Já ouvi gente boa dizer que, em seu auge, dentro da área ele foi o maioral. Não sei o que pensaria disso quem ainda tem na memória jogadores como Pagão e Coutinho. Será que Romário foi melhor do que o Pagão, ídolo do Chico Buarque de Holanda? Ou Coutinho, que até Pelé, talvez por gentileza (mas não estou muito certo disso), dizia ser o bambambã da área? Enfim, quem foi Romário, e como o avaliaremos diante do fato inescapável do gol número mil, admitindo-se, de boa fé, que as contas conferem?

Em todo caso, e sem que nenhuma nostalgia venha tisnar este nobre espaço, recordo da expectativa diferente diante de outro jogador, de outro tempo, que iria comemorar os mil. Sim, ele, o maior de todos, foi marcando seus golzinhos naturalmente, um depois do outro, numa progressão inexorável. Até que um dia fizeram as contas e constataram que estava à beira do milésimo. Deu-se aí uma certa inapetência, uma, vamos dizer assim, inibição do matador diante das redes, e Pelé diminuiu seu ritmo.

Lembro também da gozação na época, em especial a de Millôr Fernandes que, se não foi o primeiro a associar o gol ao orgasmo, o fez com maior graça. Quando Pelé se desdobrava para atingir a marca histórica, Millôr disse que também ele se aproximava de um número significativo de cinco mil, digamos, intercursos com o sexo oposto. E tal como estaria acontecendo com o Rei, também ele, reles mortal, sentia seu desempenho prejudicado pela ansiedade diante da meta.

Enfim Pelé conquistou seu milésimo contra o goleiro Andrada, do Vasco da Gama de Romário, numa noite de 1969, e essa foi mesmo uma data histórica, acompanhada com emoção em todo planeta. Depois dela, Pelé seria ainda campeão do mundo e marcaria muitos outros gols em sua vida. Supomos que Millôr também tenha deixado para trás a sua marca histórica e balançado muitas outras redes desde então.

Se temos fissura pelos números redondos, o ‘mil’ revela magnetismo particular. Não é à-toa, lembra Jorge Luis Borges, que a obra máxima da literatura árabe se chama As Mil e uma Noites. Mil noites e mais uma noite de quebra, o que dá sensação de infinito. É assim que deve se sentir um artilheiro de mil gols. Um jogador infinito. Um goleador entre goleadores. Mestre dos mestres, um escolhido dos deuses, ‘o cara’, como Romário mesmo se considera.

E o que ele fará quando por fim conquistar o seu milésimo? Vai dedicá-lo às criancinhas? Ou irá lembrar aquelas outras mil e uma noites que conseguiu compatibilizar com sua vitoriosa carreira de mil gols?