Rogéria vive
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Rogéria vive

Rogéria foi um símbolo de transgressão quando isso não era tão fácil como hoje, durante a ditadura militar

Luiz Zanin Oricchio

05 de setembro de 2017 | 13h14

 

Não conheci Rogéria em pessoa. Mas, claro, como todo mundo segui sua carreira no palco, na TV, no cinema. Há pouco, ganhou destaque no belo filme de Leandra Leal, Divinas Divas. Adorei o filme e, nele, a presença de Rogéria.

Num mundo que tentava ser mais fechado que o nosso atual, o da ditadura militar, ela aparecia de testa erguida, se assumia como era ou desejava ser, e falava o que lhe ia pela cabeça. Desconheço pessoa inteligente que não tivesse simpatia por ela.

Os tempos mudaram. Mas às vezes parece que nem tanto. Em aparência, quem quer pode sair do armário, assumir-se, etc. No entanto, um sutil, e às vezes nem tão sutil preconceito, permanece latente. E começava a aflorar.

O Brasil pós-2013 é, por paradoxo, esse país em que questões de gênero são discutidas, as sexualidades se expressam, pedem lugar e respeito e, ao mesmo tempo, tem Bolsonoro como virtual candidato a presidente, uma religiosidade tacanha que ostenta nostalgia da idade média e interesses escusos que dominam o Congresso. Esse país é uma mixórdia.

E, nessa mixórdia, Rogéria continuou agitada, alegre, espalhando otimismo por onde passasse. Sabia que era uma pioneira. “Sou a bicha da família brasileira”, dizia, numa variante da frase famosa, “Sou a travesti da família brasileira”. Todo mundo gostava dela, o que não a fazia menos corrosiva no que falava e na forma como agia.

Amo os transgressores e transgressoras de todos os gêneros. Fazem melhor e mais respirável essa república bananeira de senhores engravatados, ares bem comportados e podres por dentro.

Rogéria vive.

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