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Rodrigo Santoro interpreta os altos e baixos de Heleno

Luiz Zanin Oricchio

20 de março de 2012 | 20h17

Rodrigo Santoro encarna à perfeição o mito em ‘Heleno’, filme de José Henrique Fonseca que entra em cartaz dia 30. Ficou bem parecido com o astro do Botafogo e tomou lições de bola do ex-jogador Cláudio Adão para não fazer feio nas cenas de futebol.

Essas, no entanto, são raras. Vemos poucas vezes as jogadas características de Heleno, revividas por Santoro: a cabeçada, a matada no peito perfeita, o arremate certeiro ao gol.

A maior parte da ação concentra-se mesmo na vida de Heleno fora dos gramados. O gosto pela vida noturna, pelas bebidas e mulheres de classe (era habitué da boate Vogue) o tornaram figurinha carimbada na boêmia carioca dos anos 1940.

O filme concentra-se também na atribulada vida conjugal de Heleno, com seu relacionamento e casamento breve com a mulher, Hilma, que na ficção vira Silvia, interpretada por Alline Moraes. Ao mesmo tempo, o jogador mantém um romance com a cantora hispânica Diamantina (a deusa colombiana Angie Cepeda). A turbulência na vida privada de Heleno acompanha-se da não menos tumultuada vida profissional, na qual se torna o terror dos vestiários, pelas humilhações impostas aos colegas de time.

Rodrigo Santoro faz um esforço intenso ao emagrecer 12 quilos para viver o Heleno da decadência, em Barbacena. No asilo, as melhores cenas são as entre Heleno e o enfermeiro (Maurício Tizumba). Cenas comoventes, do ídolo caído, cuidado por alguém que o atende com toda a paciência e compreensão.

Em magnífico preto e branco, fotografado por Walter Carvalho, ‘Heleno’ remonta a um tempo de romantismo. Anos de ouro, sem as inquietações do presente. Nem por isso as pessoas passavam pela vida ilesas. No caso de Heleno, o mais infeliz dos nossos boleiros, o drama da fama, sempre ilusória, e o da decadência, inevitável. Um belo filme.

Existe um mistério nesta história triste. Os perfis biográficos, a biografia (‘Nunca houve um Homem como ‘Heleno’, de Marcos Eduardo Neves, agora relançada pela Zahar), o próprio filme, insistem que o comportamento extravagante de Heleno era ditado pela sífilis.

Mas todas as fontes reconhecem que Heleno sempre fora excêntrico, egoico, autocentrado, perfeccionista doentio – não tolerava em outros as imperfeições que não via em si. Desse modo, não seria uma interpretação tão caridosa quanto ingênua supor que a sua agressividade se devia apenas e tão somente à doença?

Não podemos pensar que o Heleno antissocial e brigão dos anos finais já estivesse contido no Heleno saudável e no auge da carreira? E que essas tendências teriam apenas sido potencializadas pela sífilis assim que ela se instalou em seu organismo?

Talvez essa hipótese faça mais humano o personagem, seja mais respeitosa com sua memória e torne mais trágico ainda o seu destino.

(Caderno de Esportes)

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