Roda do Destino, o intimismo inspirado de Hamaguchi
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Roda do Destino, o intimismo inspirado de Hamaguchi

Luiz Zanin Oricchio

06 de janeiro de 2022 | 11h18

 

Ryusuke Hamaguchi é “o” cara. Já havia visto Roda do Destino, na Mostra (segue crítica abaixo) e agora assisti a um filme anterior, Asako I & II (2018). E vem por aí o também maravilhoso Drive My Car. Não conheço Happy Hour, filme de quase seis horas, sobre quatro mulheres, com bastante prestígio entre a crítica que se leva a sério.

Enfim, me parece que o cinema de Hamaguchi se concentra bastante no universo feminino. Tem uma pegada intimista, com ênfase nos diálogos, à la Éric Rohmer, uma influência assumida. Seus enquadramentos são límpidos e as histórias fluem. O acaso tem um papel fundamental no desenvolvimento das tramas. Tchecov é outra de suas referências. Não há “grand finales” em suas histórias. Apenas uma espécie de coda melancólica, que faz com que os filmes permaneçam com a gente durante muito tempo. Ressoando. 

Roda do Destino

Duas amigas conversam no banco traseiro de um carro. Uma delas fala de um rapaz que conheceu e por quem acha que se apaixonou. A outra ouve com atenção. A cena dura vários minutos e terá um desenvolvimento instigante quando se descobrir a razão de tanto interesse por parte da interlocutora. Este é o início de um dos três episódios do notável Roda do Destino, de Ryusuke Hamaguchi. 

No segundo episódio, uma jovem vai pedir autógrafo ao professor de literatura francesa que acaba de receber um prêmio por seu romance. Ela lê em voz alta um trecho erótico do livro, para pasmo (e encantamento) do escritor. Mas o que existe por trás de tudo isso?

Na terceira história, duas mulheres se cruzam na escada rolante do metrô, uma subindo, outra descendo. Uma delas reconhece na outra a antiga colega de escola. As duas vão tomar um chá e conversar sobre os velhos tempos. Mas quem serão elas, afinal?

Aqui temos um cinema que é tanto da imagem quanto da palavra. A complicada subjetividade humana se desenvolve através do diálogo. O rigor da imagem, do enquadramento aos planos fixos e longos planos-sequência nos prendem a essas subjetividades em movimento. E a força do acaso dá movimento às histórias. Sempre há um elemento inesperado que leva a narrativa para um lado ou para outro. Em uma delas, inclusive, Hamaguchi opta por desfechos alternativos. 

Gostei muito da simplicidade que abre caminho para a complexidade das relações humanas. É um simples aparente, portanto. As relações humanas são dúbias e baseiam-se na suposição que temos do que se passa na cabeça do outro, já que não temos acesso à outra subjetividade senão pelas palavras, pelos gestos e atitudes. Tudo “fala” no Outro, mas cabe a nós interpretar. E esse movimento é recíproco. O Outro também tenta adivinhar o que se passa em minha cabeça quando falo.

Tudo isso se transforma em filme, com delicadeza, profundidade e sem deixar de enfrentar problemas, medo que ameaça travar a produção artística em nosso tempo. Por exemplo, a questão do assédio é tratada de modo muito direto no segundo episódio.  

Hamaguchi é o cara da hora. Faz um cinema muito interessante, consistente e elegante.  

Roda do Destino ganhou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim deste ano. Não contente, ele foi a Cannes com Drive my Car e levou os troféus de melhor roteiro, prêmio da crítica (Fipresci) e do júri ecumênico. Drive my Car foi escolhido pelo Japão para disputar uma indicação ao Oscar de filme internacional. 

 

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