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Roberto Freire (1927-2008)

Luiz Zanin Oricchio

26 de maio de 2008 | 20h57

Chego atrasado, mas eu devia um post a Roberto Freire, que morreu na sexta-feira aos 81 anos. Roberto andava doente há tempos, sua morte não surpreendeu mas mesmo assim doeu em amigos e admiradores. Foi uma figura ímpar na história cultural brasileira. Quem pertenceu a determinada geração sabe a influência que sobre ela exerceu seu romance Cléo e Daniel. Naqueles tempos, anos 60, anos de chumbo mas de tanta energia, aquele amor terminal, de clima existencialista numa São Paulo em transe, parecia um protótipo do que era ser jovem e apaixonado durante anos rebeldes. Li e reli, na época. Nunca mais voltei ao livro. Tenho uma edição recente, que vou ler mais uma vez, agora em homenagem a Roberto. A primeira edição é de 1966.

Anos depois, em 1970, o próprio Roberto Freire dirigiu o filme baseado no livro, que tinha Johnny Herbert no papel do psicanalista em crise que acompanha e contempla o amor terminal dos dois adolescentes do título. Talvez o filme não tenha a mesma força do livro mas exibe momentos de grandeza.

Mas não tanto é isso o que importa, pois Roberto não era apenas romancista ou cineasta bissexto. Roberto foi um ser múltiplo. Escritor, psiquiatra, dramaturgo, jornalista e, sobretudo, um anarquista de alma e corpo. Um ser libertário, que lutou toda a sua vida contra a opressão que limita o desenvolvimento do ser humano, viesse ela de fora, sob a forma da dominação política, ou de dentro, na feição da neurose e das inúteis repressões que internalizamos na infância e na adolescência. Temos de nos libertar de tudo isso, mas Roberto nos ensinava que desaprender é tarefa de uma vida inteira.

Roberto Freire acreditava no ser humano. Acreditava que, apesar de tudo, ele seria capaz de libertar-se, mesmo porque cada um de nós é seu principal opressor. Temos, como dizia acho que Godard, um “flic dans la tête” – um tira em nossas cabeças, que nos vigia, julga e pune. Um demônio a ser domado. Roberto sabia também que a luta, pelo lado exterior, seria longa e dura. Ele mesmo sofreu na pele o preço que se paga ao pautar a existência por esse tipo de idéia. Foi preso e torturado durante a ditadura. Na velhice, perdeu a visão de um dos olhos e atribuía o fato aos maus tratos sofridos na prisão.

A quem quiser saber mais sobre essa pessoa tão especial, recomendo com toda ênfase sua autobiografia Eu é um Outro (Editora Maianga). O título é tirado de Rimbaud, o adolescente que notou que, quando falava de si, falava na verdade de uma outra pessoa, de um personagem de si mesmo – “Je est um autre”.

Outra dica: o programa Provocações, gravado com Roberto em 2003, será reprisado pela TV Cultura nesta quinta, dia 29/5, às 23h40.

Saúdo esse ser libertário.

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