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Roberto Benigni, um poeta vai à Guerra do Iraque

Luiz Zanin Oricchio

27 Maio 2007 | 10h08

No começo de O Tigre e a Neve, lembramos um pouco a atmosfera do melhor filme em que Roberto Benigni participou como ator – A Voz da Lua, de Federico Fellini. A atmosfera é onírica, como na obra do ‘maestro’, com um Benigni em roupa de dormir chegando ao lugar bucólico onde um casamento está sendo celebrado. Tom Waits (o próprio) toca piano e acompanha-se em You Can Never Hold Back Spring, que ele compôs com Kathleen Brennan.

Sonhos, mas na ‘vida real’ da história, Benigni, no papel de Attilio, é também um sonhador. Poeta, é dele o livro que dá título ao filme, O Tigre e a Neve. E seu sonho é casar-se com a mulher de sua vida, Vittoria (Nicoletta Braschi), que evita como pode esse clown das letras. Vittoria também é ligada ao mundo da literatura e está terminando a tradução do poeta iraquiano Fuad, vivido pelo francês Jean Reno. É a possibilidade de fazer uma série de entrevistas com o poeta que levará Vittoria a Bagdá, no início da guerra que os Estados Unidos, apoiados por seus aliados Blair e Berlusconi, moverão contra Saddam Hussein.

Benigni é o que conhecemos de outros filmes – a presença exuberante em cena, o tom chapliniano de um humor tanto físico quanto, no seu caso, verbal. Aliás, verborrágico, como dizem seus detratores, e eles não são poucos. Ainda mais quando Benigni encarna um personagem à sua medida, um poeta lunático, como o senso comum supõe que os poetas sejam, distanciados da realidade, distraídos, falando pelos cotovelos, de senso prático nulo.

De certa maneira, o personagem de Attilio passa por esses estereótipos. Mas como negar o encanto da seqüência em que ele explica aos alunos de onde provém a magia das palavras? Aqui encontramos o melhor Benigni, aquele que encanta seu país recitando Dante Alighieri em concorridas turnês. Ele tem mesmo essa relação privilegiada com o idioma, essa faculdade de tomar as palavras como seres em si, senti-las, medir seu peso, extensão e profundidade.

Infelizmente, Benigni, tão sensível e inteligente com as palavras, nem sempre tem o senso de medida necessário com o trabalho cinematográfico. Daí a sensação de excesso que seus filmes, em geral, passam. Se ele encontra a medida justa em A Vida É Bela, que não por acaso fez sucesso e ganhou tantos prêmios, em outros trabalhos costuma usar sua vocação sempre para mais e nunca para o menos. O Tigre e a Neve não é exceção.

Da mesma forma, se a primeira parte da história (o sonho, o relacionamento difícil e idealizado com Vittoria, a presença das filhas, etc.) parece bem agenciada, a segunda, que se passa no Iraque, não anda tão bem. Seria exagero dizer que desaba, mas Benigni apresenta muito mais facilidade em trabalhar no registro do cômico que do dramático. Mesmo assim, essa virada de perspectiva não deixa de ter interesse. O poético em Benigni causaria melhor impressão se não fosse tão verborrágico. Mas então não seria Benigni.

(SERVIÇO)O Tigre e a Neve (113 min) – 10 anos. Cine Bombril 1 – 14 h, 16h30, 19 h, 21h30. Kinoplex 4 – 13h50, 16h10, 18h40, 21h10 (6ª. e sáb. também 23h30). Morumbi Cine TAM 4 – 14h10, 16h40, 19h10, 21h40 (sáb. também 23h50). Sala UOL – 14 h, 16h30, 19 h, 21h30. Unibanco Arteplex 6 – 13h50, 16h20, 18h50, 21h10 (sáb. também 23h40; 2.ª não haverá 21h10). Cotação: Regular