Robert Drew e a utopia do cinema-verdade
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Robert Drew e a utopia do cinema-verdade

Luiz Zanin Oricchio

31 Julho 2014 | 10h21

Robert Drew, o documentarista que morreu ontem aos 90 anos, tornou-se mundialmente famoso pelo filme Primárias, de 1960. Nele, registra a luta de John Kennedy com Hubert Humphrey pela indicação para concorrer à presidência pelo Partido Democrata. Primárias é considerado um divisor de águas no cinema documental norte-americano. Daí Drew ser tido um dos pioneiros do “cinéma-verité” nos Estados Unidos. Há mesmo quem o considere o verdadeiro pai desse tipo de documentário nos EUA.

O crítico Matt Zoller Seitz faz uma comparação interessante: diz que Primárias tem a mesma importância para o cinema documental que O Nascimento de uma Nação, de Griffith, teve para o cinema de ficção. O peso dessa afirmativa aparece quando lembramos que Griffith é tido como responsável por nada menos que o estabelecimento das bases da linguagem do cinema narrativo.

O próprio Drew, em entrevistas, não negava a importância desse filme, no qual esperava flagrar um fragmento da realidade política sem qualquer artifício ou rodeios. É um cinema filho legítimo do jornalismo, que o próprio Drew praticou longamente na revista Life. Compreensivelmente, cinema de tal vocação se aproxima da matéria política, com a ambição de captar a História ao vivo, em nascimento, no momento mesmo em que se faz.

Assim, além de Primárias, com Kennedy já eleito, conseguiu convencer o presidente a filmar no próprio Salão Oval da Casa Branca durante um período trepidante. Saiu daí Crise (1963). Filmado em meio à efervescência da luta pelos direitos civis dos negros americanos, o filme foi exibido na rede de televisão ABC e valeu muitas críticas a Kennedy por ter deixado uma equipe de cinema penetrar na intimidade da Casa Branca. E numa situação daquelas, ainda por cima. Primárias e Crise são fundamentais para a história do documentário moderno e foram lançados no Brasil pela Videofilmes.

O “cinema verdade” de Drew capta cenas incríveis, como Humphrey cochilando em seu carro ou uma das filhas pequenas de Bob Kennedy (então ministro da Justiça do irmão) tomando o telefone das mãos do pai enquanto este tentava dobrar o governador George Wallace, do Alabama, que não permitia a entrada de negros na universidade. Este também é visto, tentando justificar, de maneira patética, suas teorias racistas.

Drew, de uma vida longa e produtiva carreira, deixa cerca de uma centena de títulos. Filmou de touradas (Bullfight, 1960) à sensação de ausência de gravidade (Wightless, 1960). Tentou compreender o sentimento antiamericano em Yanki No! (1960) e registrou a vida de uma grande atriz (The Jane Fonda Story, 1962). Interessou-se por um potentado (Aga Khan, 1962) e um músico de gênio (Duke Ellington, 1968). Mas encontrou na política o melhor material para aplicar suas ideias sobre o cinema e o registro da vida.

Sua ideia de cinema derivava do jornalismo, tanto assim que ele recusava o título de cineasta e dizia fazer apenas “cine-reportagens” ou “jornalismo filmado”. Como lembra o documentarista Silvio Da-Rin em seu livro Espelho Partido – Tradição e Transformação do Documentário (Azougue Editorial, 2004), Drew criticava os documentários convencionais por serem falsos. “Não era somente a encenação, prática corrente no jornalismo audiovisual, mas principalmente a interpretação verbal do comentário, a música e os ruídos que costumavam ser acrescentados para dar mais espessura dramática ao filme”, escreve Da-Rin.

Robert Drew queria o real em estado bruto. Mesmo que esse desejo fosse uma espécie de utopia documental, impossível de atingir integralmente.