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Alain Robbe-Grillet (1922-2008)

Luiz Zanin Oricchio

19 Fevereiro 2008 | 20h07

Com um monte de trabalho para fazer, e mais renúncia de Fidel e outras bossas, acabei não tendo tempo de registrar a morte de Alain Robbe-Grillet, o escritor e cineasta francês, aos 85 anos.

Robbe-Grillet é um nome ligado ao nouveau roman, com sua proposta de dissolução do enredo, o que o distancia do leitor médio que deseja, no fundo, uma boa história. Alguns dos seus livros, no entanto, são muito interessantes, como Les Gommes (foi aqui traduzido mas não lembro com que título), Le Voyeur e La Jalousie (O Ciúme). Em 2001, apareceu por aqui A Retomada, um novo romance.

Mas talvez o nome de Robbe-Grillet se associe mais a um clássico do cinema, O Ano Passado em Marienbad, do qual ele escreveu o roteiro, que foi dirigido por Alain Resnais. É um filme sobre a memória e o tempo. Não hesito em classificá-lo como obra-prima. Se eu fosse um programador esperto, encontraria uma cópia de Marienbad e a exibiria. Talvez não houvesse empurra-empurra na porta do cinema, mas garanto que existe ainda muita gente querendo rever esse filme belo e estranho.

As relações de Robbe-Grillet com o cinema foram intensas. Além desse roteiro famoso, dirigiu, ele mesmo, algo como 12 longas-metragens. Vi todos. E isso porque passou um ciclo completo Robbe-Grillet num cineminha em Denfert-Rochereau, em Paris. Comprei uma assinatura e ia lá toda noite. E, no fim do ciclo, descobri que era brasileira a dona do cinema, com quem eu conversava sempre, em francês, sem saber que éramos compatriotas. Robbe-Grillet era um xodó de psicanalistas e nesse tempo eu era estudante de psicanálise. Lacaniana. Daí, em parte, o meu interesse pelo seu cinema. Gostei muito de um dos seus filmes em particular, Glissements Progressifs du Plaisir, que suspeito nunca ter sido exibido no Brasil.

Mas Robbe-Grillet em pessoa veio uma vez ao Brasil, em 1995, e foi jurado do Festival de Gramado. Exibiu na serra gaúcha um dos seus filmes mais herméticos, L’Homme qui Ment (O Homem que Mente). Tivemos uma conversa das mais agradáveis, ao pé da lareira do Hotel Serra Azul, onde se hospedavam as celebridades do festival.

Robbe-Grillet me contou muita coisa, que registrei numa entrevista escrita para o jornal. Uma delas, que escreveu diálogos tão longos para Marienbad que Alain Resnais teve de filmar em corredores cenográficos, pois não havia nenhum tão comprido em que coubessem os planos-sequência das falas. Isso encareceu o filme. Coisas assim, que ficaram registradas no papel e outras que a memória perdeu.

Mas seu próprio filme procurava mostra, à maneira de Proust e de Bergson, que a memória é móvel e ativa. Nossas lembranças são dinâmicas e as reelaboramos a cada vez que nos apoderamos dela. Só a morte paralisa essa vertigem da memória.