Rio
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Rio

Luiz Zanin Oricchio

12 Abril 2011 | 00h16

Tudo já foi dito sobre a excelência técnica de Rio, a animação de Carlos Saldanha (de A Era do Gelo). Também se faltou sobre a dimensão do lançamento, mais de mil cópias, o maior da história do circuito cinematográfico brasileiro. Resta falar sobre o filme.

Rio é um canto de amor à cidade de nascimento de Carlos Saldanha. Mas não um canto de amor boboca e acrítico. Por mais que as belezas da cidade tenham destaque, também estão presentes as favelas e até mazelas que causaram mal-estar em alguns patrícios mais ufanistas – uns miquinhos ladrões de objetos que bem poderiam representar a ação dos pivetes sobre turistas desprevenidos.

Enfim, o Rio é como qualquer grande cidade de um país cortado por desigualdades sociais. Mas também é claro, e este é o ponto mais luminoso do filme, o Rio não é uma cidade como outra qualquer. O Rio é uma cidade diferente de todas as outras. Uma cidade estupenda. E qualquer filme, de animação ou com personagens e locações reais, que não se dê conta disso, estará passando a si mesmo um atestado de cegueira estética.

Desse modo, é o aspecto deslumbrante da cidade que sobressai como ambiente para as aventuras da arara-azul Blu, que veio ao Brasil acasalar com a última remanescente da sua espécie. Pode-se dizer que o dilema central da história é meio óbvio: voar ou não voar, porque Blu, ao contrário da sua companheira, foi criado em cativeiro e não sabe planar acima dos mortais. Acontece que o desenvolvimento dessa ideia vai bem além do óbvio, mesmo porque temperada por um grande senso de humor que permeia o filme. Tira, assim, o ranço pretensioso que essas “lições de vida” costumam deixar no cinema americano.

Claro, se você tomar a espinha dorsal de Rio, verá muitas semelhanças com todo um tipo de cinema de animação estereotipado. O grande tema moral no miolo (voar, no sentido simbólico, é uma libertação das amarras da vida); os heróis e seus auxiliares de um lado, os vilões do outro. Como não poderia deixar de ser, a mensagem de base contempla também o necessário apelo ecológico, sem o qual hoje em dia não se faz mais nada: espécies em extinção, que devem recuperar seu lugar na natureza, longe dos caçadores de aves selvagens, seus predadores humanos.

Mas o fato é que olhar apenas para essa estrutura seria deixar de ver o corpo inteiro e o que ele tem de mais atraente. Seria como julgar uma bela mulher pela radiografia do seu sistema ósseo. Se a estrutura  sustenta o organismo, é preciso em especial atentar para a criatividade com que as cenas de humor são construídas e a inspiração com que  personagens se relacionam entre si. Rio vive dessa mescla de emoção e humor, sem dispensar as grandes sequências que ficarão na memória do espectador. Duas, talvez, em particular: o desfile da escola de samba com seu esplendor realista; e o voo em asa delta (ao som de Mas que Nada, de Jorge Benjor) sobre a Cidade Maravilhosa – que nunca mereceu tanto este título de cidadania mundial.