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Rio Bravo: o faroeste perfeito

Luiz Zanin Oricchio

09 de julho de 2007 | 12h28

Onde Começa o Inferno (Rio Bravo, 1959) é um daqueles filmes sobre os quais já correram rios de tinta. Em especial, porque os então jovens críticos da Cahiers du Cinéma colocaram Howard Hawks no pedestal da autoria cinematográfica, apenas um pouco abaixo de Alfred Hitchcock.

Como ver então esse filme? Ou melhor, como revê-lo já que, como qualquer outro clássico, Rio Bravo é suposto como parte indispensável do conhecimento cinematográfico de qualquer cinéfilo que se leva a sério? Pois bem, uma maneira talvez interessante, no momento em que ele sai em DVD em edição luxuosa da Warner (R$ 39,90), é atentar para o que faz deste filme um western perfeito e um permanente encanto para quem gosta de cinema.

A história é aquela que todos conhecem. John Wayne é o xerife de uma cidadezinha. Ele precisa defender a cadeia contra um bando bem armado que deseja libertar um companheiro lá preso. Wayne conta apenas com a ajuda de um velho manco (Walter Brennan) e um alcoólatra em recuperação (Dean Martin). A eles se une o jovem pistoleiro rápido no gatilho (Ricky Nelson). E o grupo se completa com a presença de uma mulher de passado suspeito e cara de anjo (Angie Dickinson), por quem o durão John T. (Wayne) acaba se enrabichando.

Tirando o enfrentamento final, Rio Bravo até que não tem muita ação para um western. Quase nada, de fato. É um faroeste de espera, quer dizer, de clima e, nessa ausência de ação é a sua forma que se depura. Boa parte se passa no interior da velha cadeia e o tempo é ocupado com a convivência dos homens. A tensão sobe, pois os bandidos pedem a um grupo de mariachis que toque incessantemente uma melodia chamada A Degola. Não é preciso dizer o seu significado. Mas nem o medo abala a amizade viril, tão sólida que, ameaçado de morte, há tempo para que o grupo toque e cante duas belas melodias. Não vamos esquecer que Ricky Nelson tem sua origem no rock.

Os elementos míticos do western estão dados: a luta dos bons contra os maus, a ameaça da fêmea ao universo macho, que se defende com a amizade viril, intensa e de poucas palavras. É com esse caráter que se civiliza um país, diz o mito. O engenho de Hawks é tratar esses pontos quase como formas puras, servindo-se de uma linha narrativa mínima, quase inexistente. E, ao mesmo tempo, colocando um certo distanciamento, permitido pelo uso do humor em situações que em tese seriam dramáticas. O resultado é estupendo e não tem paralelo na história do gênero.

(Estadão, Caderno Cultura, 9/7/07)

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