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Rio 40 Graus: imagens do povo

Luiz Zanin Oricchio

11 de julho de 2009 | 11h00

Se é para homenagear Nelson Pereira dos Santos, nada melhor que assistir a seu longa-metragem de estreia, Rio 40 Graus (hoje, às 18 h, no Memorial da América Latina). Ao ver esse filme de 1955, o espectador com senso de perspectiva poderá conferir a revolução que ele significou para o cinema nacional.

Há nele todo o frescor de uma filmagem em locações, nas ruas, uma produção barata, leve, como se tocada e interpretada por amadores – no melhor sentido do termo, o daqueles que amam aquilo que fazem. E, por isso, fazem melhor do que os meramente “profissionais”.

A equipe morava em comunidade num apartamento precário: Nelson, Guido Araújo, Zé Kéti e família, Jece Valadão e namoradas. Uma vasta população fixa, à qual se somava outra população, flutuante. Os envolvidos no projeto saíam às ruas do Rio de Janeiro para filmar, em regime de guerrilha. Tudo era contado pelo ponto de vista de cinco meninos da favela, vendedores de amendoim. O Rio era visitado em seus pontos conhecidos, Copacabana, o Pão de Açúcar, Corcovado, Quinta da Boa Vista e o Maracanã.

São flagrantes da vida da cidade, tomados com simplicidade e ternura. Ou, ocasionalmente, com raiva, diante das disparidades sociais que a “cidade maravilhosa” apresentava. O Rio era a contradição viva entre a exuberância natural, a alegria e a pobreza da população.

O filme respira, a cada fotograma, sua fonte de inspiração – o neorrealismo italiano e sua preocupação central em colocar o homem comum à frente do palco da história. Era a dimensão política de Rio 40 Graus, logo percebida pela censura da época, que proibiu o filme sob alegação de que os termômetros do Rio de Janeiro jamais haviam atingido tal temperatura. Mas talvez a temperatura que se temia não fosse aquela medida pela escala Celsius.

(Caderno 2, 11/7/09)

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