Rindo à toa – a comédia à brasileira
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Rindo à toa – a comédia à brasileira

Luiz Zanin Oricchio

06 de janeiro de 2013 | 11h19

 

Rir tem sido o melhor remédio para o cinema brasileiro. Os números não mentem: ano passado, quatro dos cinco filmes nacionais mais vistos foram comédias Até que a Sorte nos Separe, E Aí…Comeu?, Os Penetras e As Aventuras de Agamenon). A única exceção foi a cinebiografia Gonzaga, de Pai Para Filho, sobre o relacionamento conflituoso entre o rei do baião Luiz Gonzaga e seu filho, o cantor e compositor Gonzaguinha.

Na primeira semana de 2013, ainda em clima de ressaca do réveillon, mais uma comédia – De Pernas pro Ar 2– acaba de registrar a expressiva soma de 642 mil espectadores em apenas quatro dias de exibição, e já dispara na ponta da tabela. Caso mantenha o ritmo, tem tudo para se tornar o filme do verão. De Pernas pro Ar 2 é continuação de um dos cinco mais vistos em 2012. Já está prevista nova sequência, desta vez com a workaholic Alice, vivida por Ingrid Guimarães, expandindo sua rede de sex shops na França. No segundo filme, ela foi vender seus gadgets eróticos num dos destinos turísticos preferidos dos brazucas, Nova York.

Em temporada baixa para a produção nacional (caiu da participação de 15% no mercado em 2011 para cerca de 10% em 2012), são as comédias que têm segurado a barra. São a salvação da lavoura? Mariza Leão, produtora de De Pernas Pro Ar, não vê qualquer novidade no fenômeno: “Espanta-me essa percepção da imprensa sobre ser a comédia o novo ‘veio’ para atingir o público. Sempre foi assim. Da Atlântida a Mazzaropi, de Os Paqueras a Xica da Silva, do Auto da Compadecida a Se Eu Fosse Você, a comedia é gênero consagrado popularmente no Brasil e no mundo.”

Certo. Mas esta atual concentração de comédias talvez seja digna de nota. Afinal, se conferirmos outra tabela, mais dilatada no tempo, a dos maiores sucessos brasileiros de 2000 a 2012, vamos encontrar as comédias, sim, mas diluídas junto a outros gêneros. A liderança fica com o drama policial Tropa de Elite 2,que se tornou o filme brasileiro mais visto de todos os tempos, com mais de 11 milhões de espectadores. Aparecem também o drama carcerário Carandiru, o drama social Cidade de Deus, cinebiografias como 2 Filhos de Francisco,Cazuza e Olga, além do filão espírita representado por Nosso Lar.

Ou seja, visto na continuidade do tempo, o gosto nacional parece mais diversificado. Agora concentrou-se, como se as pessoas, ou a maior parte delas, só quisessem saber de comédias ligeiras e escrachadas, para rir e esquecer em seguida. Feitas, de modo geral, com elenco e estética televisivos, elas pouco diferem dos programas cômicos da Rede Globo, que na maior parte das vezes entra na coprodução através do seu braço cinematográfico, a Globo Filmes.

Amadas por boa parcela do público, as comédias têm dificuldades de aceitação por parte da crítica. Estouram nas bilheterias, mas, em regra, não conseguem arrancar estrelinhas e elogios dos jornalistas especializados. “O que me chama a atenção é como a crítica brasileira curte mais as comédias estrangeiras do que as nacionais…”, alfineta Mariza “Lion”, como a chama, no filme, a atriz Ingrid Guimarães.

Ok. Pode ser que parte da crítica seja colonizada. Mas sucesso de público não é sinônimo de qualidade artística ou prestígio autoral. Em qualquer tipo de manifestação artística, cinema, pintura, literatura ou música, existe a obra mais difícil, destinada a público mais restrito, e aquela de circulação mais fluida, mesmo porque mais redundante e de assimilação imediata.

Por isso, o especialista em mercado e diretor da publicação Filme B (dedicada à análise dos números do circuito cinematográfico), o também cineasta Paulo Sérgio Almeida, embora feliz com o sucesso das novas comédias, lembra que “quem levantou a autoestima do cinema brasileiro foi o drama, seja culturalmente, seja mercadologicamente”. Ele cita filmes como Central do Brasil, de Walter Salles, Carandiru, de Hector Babenco, Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, e Tropa de Elite, de José Padilha, que, além da ótima bilheteria interna, conseguiram repercussão cultural e representaram o Brasil em importantes festivais internacionais. Salles e Padilha venceram o prestigioso Urso de Ouro em Berlim. Meirelles brilhou em Cannes e estabeleceu um patamar de qualidade técnica. Dificilmente a comédia alcança esse status (embora Mario Monicelli tenha vencido o Festival de Veneza em 1950 com seu A Grande Guerra, uma comédia que termina em tragédia).

No entanto, há casos de filmes de muito sucesso em seu tempo, desprezados pela crítica de arte, depois “recuperados” e agora tidos como exemplares importantes da cultura nacional. É, entre nós, o caso das chanchadas da Atlântida, que fizeram sucesso de público nos anos 40 e 50, mas não arrancavam suspiro (ou risos) de espectadores intelectualizados. Pelo menos em sua época.

Hoje, quem seria capaz de negar talento a diretores como Carlos Manga ou José Carlos Burle, ou a atores como Grande Otelo e Oscarito, que formavam a mais famosa dupla cômica daquele tempo? O importante crítico (e colunista do Sabático)Sérgio Augusto, escreveu, em 1989, Este Mundo É um Pandeiro, até hoje o mais influente estudo sobre o gênero da chanchada. Numa das epígrafes do livro lemos a frase de Machado de Assis que ilumina o fenômeno da chanchada, entre outros casos exemplares da arte popular: “O povo ama as coisas que o alegram”. Rir é bom.

A chanchada soube somar várias coisas “que alegram o povo”. Entre elas, a música, o carnaval e a picardia nacional, que a levava a parodiar o cinemão dominante em filmes como Matar ou Correr, O Homem do Sputnik, Nem Sansão nem Dalila, etc. A gozação do Outro, a fruição, o riso e a música, ou a autoparódia macunaímica, garantiam o sucesso das chanchadas.

A questão, portanto, não se resume em colocar um gênero na berlinda, a comédia, mas discutir a qualidade do que está sendo feito. Paulo Sérgio as defende: “Quem conseguiu assistir a E Aí…Comeu? sem preconceito assistiu a uma comédia de evolução dramática difícil de ser vista por aí”. Elogia também a evolução de De Pernas pro Ar 1 para o 2 e coloca Os Penetras na tradição da comédia de costumes do Rio, citando o carioquíssimo Hugo Carvana (de Vai Trabalhar, Vagabundo e Bar Esperança). Paulo Sérgio pensa na saúde da indústria, embora reconheça qualidades nos filmes: “Gente, é apenas o sucesso, sem ele não existe mercado, se não existe mercado não existe solução!”. E a qualidade? Paulo Sérgio entende que exigimos muito do cinema brasileiro: “Queremos ao mesmo tempo qualidade e que seja um grande sucesso de público. Isto não seria pedir demais?”

É uma questão a ser discutida. Há quem se preocupe com o nível atual das comédias. O ensaísta e professor da USP Ismail Xavier, um dos mais respeitados pensadores de cinema do País, faz restrições: “Afora a experiência de Daniel Filho no eixo cinema-TV, o bom momento de Jorge Furtado-Guel Arraes e o cinema de grande talento e interesse feito pelo Domingos Oliveira, as coisas não andaram bem, apesar do sucesso do gênero”.

Ismail lembra algo evidente, mas que precisa ser destacado: “O sucesso pode ocorrer com ou sem talento, como acontecia nos anos 50”. No tempo das chanchadas havia as ótimas e também as medíocres. As boas são lembradas. A questão é a qualidade, que determina a permanência.

Para o cineasta Jorge Furtado (de Ilha das Flores e O Homem que Copiava, “dá para fazer comédia sem baixar o nível e atingir um grande público. Shakespeare e Chaplin fizeram, por que não podemos fazer?”, pergunta. Jorge não tem medo de sucesso e nem filma para meia dúzia de críticos-cúmplices. Quer atingir o público. Sua empresa produz para a Globo e, há pouco, dirigiu (com Ana Luiza Azevedo) o especial de fim de ano Doce de Mãe, com Fernanda Montenegro, atingindo 24 pontos de ibope. Doce de Mãe é engraçado e terno. Jorge admite que se a comédia é o gênero preferido do brasileiro, é também o dele: “Gosto de comédias tristes, como as de Ettore Scola, Mario Monicelli, Alain Resnais, Federico Fellini, Woody Allen, Domingos Oliveira”. E quem não gosta?

Comédias são ótimas. Ou podem ser ótimas, desde que cozinhadas com inteligência, em respeito à capacidade mental do público. Não se trata de demonizar a nova comédia à brasileira, nem endeusá-la porque dá certo na bilheteria, mas estimulá-la a subir de nível. Dieta mais refinada não há de espantar o espectador, desde que servida com engenho e arte. Acomodar-se ao sucesso pode lhe ser fatal.

Tabela

As 5 maiores bilheterias nacionais em 2012 *

  1. Até que a Sorte nos Separe: 3.427.000
  2. E Aí…Comeu?                    : 2.600.000
  3. Os Penetras:                       : 1.892.000
  4. Gonzaga, de Pai para Filho:  1.463.000
  5. As Aventuras de Agamenon:  1.132.000

 

  • Obs: Alguns desses filmes continuam em cartaz. Os números se referem à última semana de 2012
  • Fonte: Portal Filme B

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