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Ricky

Luiz Zanin Oricchio

24 Abril 2011 | 23h31

Em muitos sentidos, Ricky, de François Ozon, é um filme desconcertante. No principal deles, pela mistura de um realismo estrito com o universo do fantástico, aquele em que as coisas não acontecem segundo a lógica vulgar.

Na história, Katie (Alexandra Lamy) é uma operária, que tem uma filha, Lisa (Mélusine Mayance), e se apaixona por um colega de trabalho, o espanhol Paco (Sergi Lopez). Da união, nasce um bebê, Ricky (Arthur Peyret) que se revelará pouco comum.

São muitos elementos heterogêneos, o que faz o espectador temer pelo equilíbrio do filme. Por um lado, Ozon procura mostrar de maneira completamente despojada um cotidiano da vida operária na França. Tudo muito correto, porém sem qualquer luxo. Emprego monótono, uma filha para criar, um apartamento tanto confortável quanto acanhado – nada na vida de Katie tem algum brilho em particular. A não ser quando fica grávida e dá à luz um bonito bebê.

Há aí uma interessante mudança de perspectiva, que se expressa no estilo de filmar. Se antes tínhamos uma câmera “objetiva”, que registrava um dia-a-dia sem qualquer glamour, agora, com a presença de Ricky, é como se realidade ganhasse novo brilho. O mundo adquire outro sentido, outra, digamos assim, poética, quando uma nova vida se inicia. Passa-se de um ponto de vista “neutro” para um olhar encantado, em que o elemento mágico pode se insinuar na trama de maneira confortável. Não que o espanto esteja ausente diante do maravilhoso. Mas ele logo é assimilado e, o que poderia ser considerado uma aberração pelo olhar laico, logo é visto, pela mãe, como um dom, algo extraordinário. Entre outras coisas, Ricky é um estudo sobre a maneira como as mães enxergam seus filhos. Um olhar todo especial, como se sabe, e muito pouco objetivo.

De certa forma, Ricky é mais um passo na construção da trajetória desse cineasta nada usual. Ozon gosta de introduzir elementos de estranheza em suas histórias, como forma, por um lado, de livrar-se da camisa de força do realismo extremo. E, também, como maneira de desvendar um pouco do que existe de mistério sob a aparência óbvia das coisas. Assim, por exemplo, em Sob a Areia, há um misterioso desaparecimento de pessoa que altera toda a vida da protagonista. Em Swimming Pool – à Beira da Piscina, o fascínio de uma mulher por outra desvenda a faceta obscura da personalidade de uma escritora. E, no ainda inédito no Brasil, Potiche, uma dona de casa sofre radical transformação e converte-se em ativista política. Não são filmes para serem analisados à luz do realismo: contêm elementos díspares, que não parecem caber no mesmo espaço e, no entanto, conseguem ser dispostos de forma coerente.

Ozon mexe-se com esses filmes às vezes desconfortáveis com a mesma naturalidade com que Ricky parece relacionar-se com seu corpo. Há muitos ingredientes heterogêneos nesse filme estranho. O cotidiano entorpecedor imposto às classes populares, a voracidade da mídia, os limites da ciência médica, o conformismo – tudo parece acomodar-se nesse corpo monstruoso mas do qual o diretor consegue extrair uma curiosa beleza. O remédio para a mesmice, parece nos dizer Ozon, é dar asas à imaginação. Em seus melhores momentos, o filme voa.

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