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Ricki and the Flash, o brilho de Meryl Streep

Luiz Zanin Oricchio

09 Setembro 2015 | 19h31

Meryl Streep é a roqueira sessentona Ricki Rendazzo em Ricki and the Flash – De Volta para Casa, de Jonathan Demme. A certa altura do campeonato, Ricki faz um discurso que é o próprio cerne do filme: Miki Jagger teve um monte de filhos com várias mulheres e ninguém nunca questionou que tivesse seguido sua carreira ao invés de dedicar-se à vida em família. Em se tratando de mulheres, a compreensão não é a mesma. Para dizer o mínimo.

Ricki é essa pessoa. Ela deixou a família estável, o nome de batismo, Linda, o marido (Kevin Kline) e três filhos em busca do sonho de ser uma musicista. É tratada como uma anormal. No entanto, segue adiante, cantando e tocando sua guitarra em pequenos restaurantes de Los Angeles, enquanto sua ex-família toca a vida no mais conservador meio-oeste norte-americano. Ricki, ou Linda, irá reencontrar-se com a família quando sua filha Julie (Mamie Gummer, também filha de Meryl na vida real) tenta o suicídio.

O filme é mais do que mero veículo para Meryl Streep, essa campeã do cinema americano, vencedora de três Oscars. Verdade que ela canta, toca, e encanta com sua presença luminosa neste papel problemático. Afinal, num cinema pouco acima do convencional, não é fácil sustentar a posição de “mãe desalmada” sem cair na caricatura. Mais ainda quando se trata de reconquistar a filha e, num lance final, comparecer ao casamento de outro filho, sendo que todos se sentem ressentidos contra ela.

Meryl brilha, como sempre. Mesmo como cantora, como fez em A Última Noite, retirada de cena do grande Robert Altman. Mas o filme de Demme, que não pretende ser tão fora dos eixos assim, também ajuda. Demme (de O Silêncio dos Inocentes, Filadélfia e O Casamento de Rachel) não é diretor convencional. Propõe uma personagem problemática, Ricki, obstinada atrás do seu sonho, mas mesmo assim dividida. Sabemos que é assim, na vida. Difícil encontrar alguém tão limitado que não tenha nada a lamentar das opções feitas. É da natureza humana desejar coisas incompatíveis. E assim é Ricki, ou Linda, tão bem representada pela ambiguidade de Meryl. Ora ela é uma roqueira segura de si e agressiva no palco. Ora, a amante insegura de um músico. Ora a mãe que enfrenta (com sofrimento) a reprovação de filhos mais conservadores do que ela. Meryl toca todas essas notas dissonantes entre si e as faz soarem como melodia inteiriça. Não é tão simples.

Em termos de direção, Demme empresta uma pulsão firme ao filme. Sem ser muito inovador do ponto de vista formal, investe no realismo (a ponto de Meryl ter aprendido a tocar um pouco de guitarra para não ficar dependente do playback). O roteiro é de Diablo Cody (de Juno), que conta ter se inspirado na própria sogra, integrante de uma banda cover em New Jersey. E a trama é toda recheada de música: Bruce Springsteen, Lady Gaga, U2, etc.

No todo, fica essa ideia subjacente – o sonho pessoal tem um preço a ser pago. Muitas vezes, esse preço envolve outras pessoas. Mesmo assim, o espírito moderno não se conforma com o sacrifício imposto pelos papeis rígidos de antigamente. Em especial quando se trata da mulher, com seu permanente duplo vínculo de mãe e profissional (ou mãe e artista, no caso).

No fundo, trata-se de um filme de viés feminista, que não dá respostas prontas, porém questiona esses papéis familiares rígidos e as fronteiras (machistas) que os mantêm. Tudo isso, sem contar que Ricki and the Flash é bastante agradável de assistir.

 

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