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Revoluções

Luiz Zanin Oricchio

22 de maio de 2011 | 10h28

O projeto Revoluções é amplo demais para ser comentado em uma única matéria. Supõe segmentos expostos em módulos como fotografia, filmes e música, compreendendo também um seminário internacional, com a presença de, entre outros, o badalado pensador esloveno Slavoj Zizek. As atividades são gratuitas e acontecem nas instalações do Sesc Pinheiros (Rua Paes Leme, 195. Veja o conteúdo no site http://revolucoes.org.br/v1/).

Para ficar apenas no eixo cinematográfico do evento, deve-se dizer que ele contempla alguns finos e raros biscoitos, com obras dos cineastas Jean-Luc Godard e Alexander Kluge. De Godard, o mais radical dos inventores da nouvelle vague francesa, chegam algumas obras pouco conhecidas no Brasil como O Velho Lugar, A Origem do Século 21 e Eu Vos Saúdo, Sarajevo. De Kluge, o monumental Notícias da Antiguidade Ideológica: Marx, Eisenstein, o Capital, um oceano imagético e reflexivo de 570 minutos.

Os filmes de Godard são menos longos. O Velho Lugar (2002, 49 min.) é um ensaio sobre a necessidade da arte e seu lugar na história humana. A Origem do Século 21 (2000, 16 min.) é um curta-metragem de encomenda para o Festival de Cannes do ano 2000 e procura fazer um resumo do tempestuoso século passado, a “era dos extremos”, na feliz expressão de Eric Hobsbawm. O brevíssimo Eu vos Saúdo, Sarajevo (1993, 2 min.) é um contemplação instantânea da Guerra da Bósnia, construída a partir de uma única foto.

É de Kluge a atração mais paradoxal. Inédito em português, ele retoma, em suas nove horas e meia de duração, o projeto nunca posto em prática, de Sergei Eisenstein de realizar uma adaptação para o cinema de nada menos que O Capital, o clássico da economia política de Karl Marx. A bem da verdade, Eisenstein ambicionava verter para imagens “apenas” o primeiro dos três volumes em que a obra-prima de Marx se divide. Mesmo assim, o projeto parece delirante.

E não menos ambicioso quando se sabe que, na mesma época em que Eisenstein sonhava com esse projeto, lia Ulisses, de James Joyce, que revolucionava a literatura mundial. Assim como Joyce de certa forma resumia a história da humanidade pela trajetória de um dia na vida do seu antiherói Leopold Bloom, Eisenstein queria abarcar a totalidade da aventura econômica do homem em um dia no fluxo de consciência da mulher de um trabalhador.

O próprio Notícias da Antiguidade Ideológica é um fluxo de imagens muito bem amarradas, porém de modo nenhum em uma estrutura linear. Como na vanguarda russa, Kluge usa uma profusão de cartazes e inscrições na tela, entremeadas de imagens de arquivo. Ancora-se em alguns pontos de reflexão, quando entrevista uma historiadora e um filósofo. São momentos de meditação, em especial sobre as condições de momento de Eisenstein e da possibilidade da representação pela imagem de um conceito como o de “capital”, que, claro, não é sinônimo de dinheiro. É uma viagem. Longa, nem sempre confortável, porém compensadora.

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