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Revisões da História

Luiz Zanin Oricchio

03 de abril de 2007 | 22h40

Minha coluna no Esportes do Estadão. Abraços.

Entendo que clubes, pessoas e países devem cuidar com zelo do seu passado, e em nome do presente e do futuro. Um passado glorioso e não esquecido nos dá solidez para atravessar um presente às vezes desconfortável e nos prepara para um futuro melhor. Assim pensando, o Palmeiras exumou um velho título de campeão da Copa Rio de 1951 e alçou-o a nível mundial com anuência da Fifa.

A autoridade máxima do futebol é a fiadora dessa conquista. O que se pode querer mais? Mas, pela lei universal da eqüidade, também o Flu tem direito ao seu título mundial, pois venceu a Copa Rio de 1952. E, em seguida, vem o Vasco, ganhador do torneio Rivadavia Corrêa Meyer, que substituiu a Copa Rio em 1953. Caso consigam, seriam também campeões, e sem a necessidade de passar por uma pedreira como a Libertadores e, em seguida, ir ao outro lado do mundo para encarar o campeão europeu. Mesmo o Santos, bicampeão pelo método convencional, reivindica à Fifa que a Recopa de 1968 seja considerada título mundial, o que o igualaria ao São Paulo em conquistas. Passamos do culto ao passado à revisão da História.

Enfim, cada clube tem sua contabilidade própria, para uso doméstico. Por exemplo, o Santos se considera tricampeão sul-americano (e mundial), já que inclui em seu currículo aquela Recopa não contabilizada pela Fifa. E, na Vila Belmiro, tem-se como certo que o time foi oito vezes campeão brasileiro e não apenas duas (2002 e 2004), como consta na CBF. Qual deve ser o critério para cada caso? O aval da autoridade maior, no caso a Fifa? Sim, mas não esqueçamos que os Mundiais Interclubes (que os europeus chamam de Copa Intercontinental) não eram reconhecidos pela Fifa até há pouco. O que permitia ao Corinthians afirmar que era o ‘primeiro campeão mundial reconhecido pela FIFA’ por conta do torneio do ano 2000, realizado no Brasil, e do qual o Palmeiras foi injustamente excluído.

Da mesma forma, o milésimo gol de Romário, que ainda não saiu, é fruto de revisão de cálculos, incluindo gols marcados antes de se tornar profissional. Outro dia ouvi na rádio entrevista com o veterano Túlio e ele disse que também está em busca dos mil. Teria algo como setecentos, mas, refazendo as contas segundo a aritmética de Romário, saltou para oitocentos e tantos. Como pretende jogar por mais três anos, o milésimo passa a ser meta palpável. Dadá Maravilha, que parava no ar como o beija-flor, afirmou que tem mais de mil. E meninos, mal saídos dos cueiros, começam a contabilizar seus golzinhos, pensando no futuro.

Dizem que o promissor Lulinha, que ainda nem estreou no profissional do Corinthians, tem mais de 160, contados desde o infantil. Deve chegar aos mil com mais facilidade que Pelé.

Estamos na época das revisões e tudo passou a ser permitido. Agora, eu gostaria de saber se na intimidade do coração, sem contar para ninguém, o palmeirense considera esse título de 1951, recém-reconhecido pela Fifa, mais importante do que a conquista da Taça Libertadores de 1999. Vamos lá, nem precisam responder, apenas pensem no assunto.

PERGUNTINHA

Houve tumulto no clássico de domingo. Enfrentamento de torcidas, bombas de gás lacrimogêneo, correria, bordoadas, gente ferida; houve até brigas entre dirigentes são-paulinos e palmeirenses nas tribunas do estádio. Será que em função disso o Ministério Público e o presidente da Federação Paulista de Futebol vão considerar o Morumbi pouco seguro para a realização de clássicos, como fizeram com a Vila Belmiro e o Parque Antártica? E, nesse caso, onde seriam jogados os clássicos? No planeta Marte?