Macunaíma, nosso irmão
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Macunaíma, nosso irmão

Luiz Zanin Oricchio

03 Novembro 2006 | 13h19

Amigos e amigas: acho a hora boa para rever Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade, que reestreou com cópia brilhando de nova. O filme diz muito sobre nós e nosso país. Abaixo, transcrevo a crítica do filme que escrevi para o Caderno 2:

mau
Paulo José: o Macunaíma branco

Dá para discutir se Macunaíma é ou não o melhor filme de Joaquim Pedro de Andrade. Afinal, pode ser tema de debate a superioridade formal de O Padre e a Moça ou a maturidade política de Os Inconfidentes. De toda forma, talvez Macunaíma seja, se não o melhor, talvez o seu título mais significativo. Aquele através do qual Joaquim conseguiu realizar o que se esperava de um diretor do Cinema Novo naquele momento – um pensamento profundo sobre o Brasil, suas determinações, sua situação diante do mundo e de si mesmo.

É claro, também, que toda essa perspectiva vinha já embutida no romance-rapsódia de Mário de Andrade e em seu personagem, o herói sem nenhum caráter. Mas coube a Joaquim ler o romance em sintonia com sua época (fim dos anos 60), imprimindo à trama, se o termo cabe, o tom feérico, colorido ao extremo e debochado de uma neochanchada já pós-Terra em Transe (lançado em 1967) e em plena efervescência tropicalista.

Vale dizer: o herói Macunaíma é o próprio povo brasileiro, e isso já havia saído da cabeça de Mário de Andrade. A opção por interpretá-lo através de Grande Otelo, quando preto, e Paulo José, quando branco, foi inteligente. Macunaíma é o herói preguiçoso, mulherengo, cheio de astúcia mas frágil – um profeta do jeitinho brasileiro, essa característica da qual tanto nos orgulhamos, e que tanto nos envergonha. A duplicidade de Macunaíma é a de todos nós diante do Brasil; e suas mutações sucessivas, sempre permanecendo o mesmo, falam bem da clássica ambivalência do brasileiro em relação ao País. Amamos e odiamos. Queremos nos livrar do Brasil e o levamos colado à pele, ora como um manto sagrado, ora como uma canga. E ele termina por nos devorar, como faz com Macunaíma na magistral cena de desfecho.

Levando Macunaíma à cidade e promovendo seu encontro com a guerrilheira Ci (Dina Sfat) e com o capitalista ítalo-brasileiro Venceslau Pietro Pietra, Joaquim adensa o personagem e o faz dialogar com a conjuntura do momento e o capitalismo tardio da época.

Se o projeto modernista de Mário previa uma reflexão sobre o Brasil, o ideário do Cinema Novo incluía essa meditação e a desenvolvia segundo as contradições daquela época. O Brasil entrava de forma consistente no ciclo industrial mas ao mesmo tempo se colocava à margem da democracia. Participava do jogo mundial como dependente e enfrentava uma oposição interna que pretendia levá-lo à emancipação. Era assim naquele final de década, já na ressaca de 1968 e sob a ditadura do AI-5.

A grande qualidade de Macunaíma foi ter juntado contingências e traços mais permanentes e conseguido somá-los em seu projeto estético. Melhor ainda: travou com o público o diálogo que outras obras do Cinema Novo não puderam estabelecer. Pode-se supor que a platéia que via Macunaíma naquela época talvez estivesse seduzida por sua forma carnavalesca e, assim, refletia sobre seu conteúdo mais profundo.

Afinal, Joaquim promove, com este filme, a síntese de uma das tantas dualidades a que o brasileiro se vê sujeito durante a sua vida: com a ênfase na antropofagia, Joaquim leu Mário de Andrade com olhos de Oswald. E nega-se portanto a optar entre as duas figuras de proa do modernismo – Mário e Oswald – entendendo que é de ambos, o apolíneo e o dionisíaco, que devemos nos servir para compreender e viver o Brasil, e não ou de um ou de outro, de forma excludente. Macunaíma é, também, uma arte da síntese.

Macunaíma – Unibanco Arteplex 7. Shopping Frei Caneca. 13h20, 15h30, 17h40, 19h50, 22h. Cotação: Ótimo