Revendo ‘Fome de Viver’
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Revendo ‘Fome de Viver’

Luiz Zanin Oricchio

29 Janeiro 2014 | 14h37

Quando lançado, no início dos anos 1980, houve um tititi em torno de Fome de Viver. Havia o diretor Tony Scott, como o irmão, Ridley, vindo da publicidade. E, sim, David Bowie, Catherine Deneuve, Susan Sarandon e uma história de vampiros, ainda por cima. O filme logo se tornou cult, o que não quer dizer que fosse bom.

Eu morava fora do Brasil na época, o assisti em Paris e era aquele tipo de filme que “todo mundo” via. Você ficava por fora das conversas caso o desconhecesse. Nunca mais o tinha revisto. Lembrava vagamente de algumas passagens, como a longa transa entre a vampira Deneuve e a médica Sarandon. Tenho a impressão de que aquilo, muito antes do lesbian chic se tornar banal no cinema, foi o que mais marcou no filme.

É verdade que a cena é bastante estetizada, ainda mais se comparada com a contemporânea, de O Azul é a Cor mais Quente, de Kechiche. Neste, as atrizes Adèle Exachorpoulos e Léa Seydoux testemunham sua paixão com empenho, até mesmo com seus fluidos. As cenas entre Deneuve e Sarandon, calientes, são mais limpinhas, digamos. Vamos lá: é sexo publicitário, de muito bom gosto, não transcrição daquilo que se passa na cama entre dois seres humanos com tesão um pelo outro.

Esse é o tom geral do filme. Limpinho, higiênico, com belas imagens, mesmo em cenas de sangue e sexo. Cinéma-pub, dizíamos na época. Poderia ter sido dirigido por Madonna.

Mas, tirando isso, até que vai se deixando assistir. Mesmo porque ver a Catherine Deneuve de uns trinta anos atrás é um regalo e tanto. O problema é que o filme desanda mais próximo ao final, quando deixa seu bom gosto de lado e encaminha-se para o trash da maneira mais desenvolta possível. O que é aquilo, os vampiros deteriorados no sótão, revoltando-se contra sua mestra? Trash puro. Para quem gosta…

Resta a curiosidade de ver Bowie como o eterno (ou quase) companheiro da vampira Deneuve; a própria Deneuve, vampira europeia refinada, e Sarandon, novinha e inocente.