Retrospectiva cinema 2007
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Retrospectiva cinema 2007

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2007 | 20h07

Amigos, escrevi uma retrospectiva do cinema em 2007 para o Caderno 2, mas ficou grande demais e tive de cortar para a publicação em jornal. Abaixo segue o texto integral, caso alguém se interesse por ele.

vida
Cena de Em Busca da Vida, de Jia Zhang-ke

Um ano que tem Em Busca da Vida, de Jia Zhang-ke entre os filmes estrangeiros, e Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, entre os nacionais, não pode ser considerado perdido. E, de fato, visto por seus destaques, 2007 não deixou de cinematograficamente interessante, mas desde que se afine a sensibilidade para o que houve de qualidade e não da quantidade. Nem poderia ser de outra forma. Num mercado que lança mais de 300 longas-metragens por ano é mais ou menos esperado que grande parte deles seja dispensável, no sentido dito “artístico” pelo menos. Muitos desses filmes descartáveis serviram para seus propósitos imediatos – hora e meia de entretenimento e nada mais.

Não se trata aqui de restabelecer a discutível distinção entre filme de arte e filme de mercado, pois, por sorte, muitas vezes essa fronteira não existe. A distinção a ser feita, no caso, é entre filmes que nada têm a acrescentar, rotineiros, embora embalados muitas vezes em alta tecnologia, e aqueles que propõem horizontes diferentes ao seu espectador, que trazem novidades na maneira de abordar seus temas, que, enfim, deixem uma marca em seu tempo e tenham probabilidade de serem lembrados no futuro.

Esse é o sentido do destaque dado a Em Busca da Vida, filme que deu ao chinês Jia Zhang-ke o Leão de Ouro de Veneza no ano passado. Por um lado há o tema, a China, que surge como a grande potência emergente e cria inquietações nos países dominantes. Mas essa China, pelo olhar de Zhang-ke, aparece cheia de contradições – a principal delas a que opõe o crescimento acelerado e uma vida de tradição milenar. O progresso é inevitável e desejável, mas a aceleração econômica sem freios parece estar destruindo todo um modo de vida. É o que constata o cineasta, não sem melancolia, mas também sem qualquer saudosismo. Com um tipo de cinema que às vezes lembra Antonioni pela rarefação e longos planos desertos, Zhang-ke mostra os seres humanos sendo levados para lá e para cá, como folhas ao vento carregadas pelo boom econômico. A “locação” é a gigantesca obra da represa das Três Gargantas, vista pelo ângulo do seu custo humano.

Do lado brasileiro, o destaque vai para Eduardo Coutinho e seu Jogo de Cena. O cineasta reúne um grupo de mulheres através de um anúncio colocado num jornal. Pede que elas lhe contem histórias de vida. Depois, convoca algumas atrizes conhecidas (e outras nem tanto) para que interpretem esses relatos. Nem sempre se sabe se quem está falando para a câmera é uma atriz ou uma personagem real. Nem sempre se sabe se a atriz interpreta apenas o que as outras contaram ou se acrescenta alguma coisa sua. Nem sempre se sabe se as pessoas dizem a “verdade” ou uma versão dos fatos, segundo sua imaginação. Importa é que todas – personagens e atrizes – trazem para o palco a “sua” verdade, essa que recebe o carimbo de autenticidade da emoção, naquele que talvez seja o filme mais comovente, mas também o mais rigoroso, do ano.

Essa oscilação entre realidade e fantasia faz com que seja difícil classificar Jogo de Cena como documentário ou ficção – é obra híbrida, que tendemos a ver como documental porque é neste campo que Coutinho se exercita melhor. Basta lembrar de sua obra-prima, Cabra Marcado para Morrer, melhor exemplar de cinema político feita entre 1964 e 1984. E, se pensarmos em Jogo de Cena como documentário, teremos de constatar que 2007 foi um ano excepcional para esse gênero. Não apenas pelo filme de Coutinho, mas porque inclui também Santiago, outro título notável, este de João Moreira Salles. É todo um memorialismo pessoal, e também brasileiro de modo mais amplo, que o cineasta reconstrói através do depoimento do mordomo de sua família, os Moreira Salles. Depoimento humano, cheio de mistério e encanto, no qual muitos vêem, também, a expressão inconsciente da questão de classes à brasileira. a interpretação não está errada e seria difícil que não estivesse presente no filme, o que em nada o diminui.

O ano brasileiro no cinema não pode ser contabilizado sem lembrar o grande sucesso de público e de escândalo de Tropa de Elite, de José Padilha. Colocando em cena os métodos heterodoxos de combate ao crime utilizados pelo Bope, e numa linguagem ostensivamente unilateral, o filme provocou polêmica. Foi visto como denúncia por muita gente progressista, ao mesmo tempo em que era apropriado pela direita política mais tacanha (“faz sucesso porque trata bandido como bandido”). Deixa legado interessante, o de ter relançado o debate sobre a segurança na sociedade brasileira e ter tirado muita gente da toca ideológica no momento em que a troca de opiniões se acirrou. Lançou também o debate sobre a pirataria uma vez que foi amplamente copiado antes do seu lançamento comercial. Houve quem visse nessa pirataria ostensiva um lance de marketing a mais, mas em vista dos prejuízos comerciais essa hipótese foi arquivada. Tropa de Elite não terminou sua carreira – representa o Brasil na mostra competitiva de um dos principais festivais do mundo, o de Berlim, em fevereiro de 2008. Ainda vai render muita discussão, e agora no exterior.

Outro filme de ficção forte foi Baixio das Bestas, de Claudio Assis, que põe em fricção a beleza plástica e seu horror temático – a violência contra as mulheres na Zona da Mata de Pernambuco. O enérgico Proibido Proibir, de Jorge Durán, teve a coragem de recolocar a questão política entre personagens jovens e contemporâneos, em linguagem rejuvenescida. Já outros filmes brasileiros, que estão entre os melhores deste ano, preferiram dar tratamento intimista aos seus temas como Cão sem Dono, de Beto Brant, Via Láctea, de Lina Chamie, Casa de Alice, de Chico Teixeira, Mutum, de Sandra Kogut, Carreiras, de Domingos Oliveira. Cada um deles é excepcional à sua maneira, compondo um momento muito bom, do ponto de vista estético, do cinema nacional.

Entre os documentários também devem ser lembrados Hércules 56, de Silvio Da-Rin, e Caparaó, de Flávio Frederico, ambos sobre a resistência armada ao governo militar. 500 Almas, de Joel Pizzini, é uma obra inventiva sobre a questão indígena. E o ano fecha com o sensível Engenho de Zé Lins, de Vladimir Carvalho, sobre o escritor paraibano José Lins do Rego. O gênero está em alta, como se nota não apenas pela qualidade, mas pela presença numérica. Entre os 80 títulos brasileiros lançados em 2007, 30 são documentários.

Entre os estrangeiros, além do chinês Em Busca da Vida, o destaque fica para a boa presença do cinema francês neste ano. Medos Privados em Lugares Públicos, do mestre Alain Resnais, é um dos melhores filmes do ano, ao lado de Lady Chatterley, de Pascale Ferran, que adaptou com grande sensibilidade o romance polêmico de D.W. Lawrence. Um Lugar na Platéia, de Danièle Thompson é um filme agradável e rebuscado e A Comédia do Poder traz a marca de outro mestre, Claude Chabrol, filmando sempre com rigor…e leveza, qualidade tão em falta no mundo contemporâneo. Também no fechamento do ano, chegam os bonitos Conversas com meu Jardineiro, de Jean Becker, e Em Paris, de Christophe Honoré, diretor que é o novo darling da Cahiers du Cinéma. Espera-se que esse diálogo retomado entre Brasil e o cinema francês seja mantido, inclusive com o lançamento aqui do fundamental A Questão Humana, de Nicolas Klotz, prometido para o ano que vem.

Outro dos melhores filmes de 2007 veio não da França, mas da vizinha Alemanha – A Vida dos Outros, de Florian Henckel von Donnersmarck, sobre a polícia política da antiga Alemanha Oriental, a Stasi, e o controle que exercia sobre as pessoas.

As surpresas, aqueles filmes difíceis de enquadrar em qualquer categoria, vieram de várias partes do mundo. São os casos de O Hospedeiro, de Bong Joon-ho, da Coréia do Sul, A Leste de Bucareste, do romeno Corneliu Porumboiu, O Grande Chefe, do dinamarquês Lars von Trier. Como classificá-los? Filmes mistos, que jogam em vários gêneros e usam diversas linguagens? Ou apenas frui-los e aproveitar o que existe de surpresa nessa arte tornada rotineira? Qualquer que seja a resposta, estes foram filmes que estimularam a nossa imaginação no ano que passou, e isso não é pouca coisa.

O mesmo se poderia dizer de dois filmes norte-americanos, Maria, de Abel Ferrara, e Império dos Sonhos, de David Lynch, ambos inclassificáveis, no bom sentido do termo. O de Lynch ganhou certa notoriedade na mídia sob a etiqueta de “filme incompreensível”, mas do qual não se pode falar mal porque não pega bem. À parte esse detalhe, digamos, mundano, é uma obra notável pelo que tem de surprendente, diga-se o que se quiser.
O cinema norte-americano de qualidade trouxe ainda o díptico sobre a Segunda Guerra de Clint Eastwood – A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima –, exemplo de cinema rigoroso, clássico, capaz de ouvir o outro e compreendê-lo como condição de compreender a si mesmo. Veio ainda dos EUA o belo faroeste crepuscular O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford, entre outras coisas uma reflexão sobre a sociedade do espetáculo e suas conseqüências. O conceito de sociedade do espetáculo foi cunhado em 1968 por Guy Debord, mas o cineasta Andrew Dominik o usa para entender porque alguém é levado a destruir seu objeto de adoração. E o que lucra, e perde, com isso.

Também norte-americano, apesar de dirigido pelo mexicano Alejandro González Iñarritu, é Babel, filme que faz jus ao título e trata do mundo globalizado, sendo ele próprio uma produção entre vários países e falado em diversos idiomas. Talvez seja uma tentativa, ainda incipiente, de refletir sobre a interligação de tudo no mundo contemporâneo. Mas tem seu charme e beleza. E, se a palavra não estiver desgastada, sua parte de verdade, embora diminua quando revisto.

Em produção britânica, chegou o Woody Allen do ano (sim, porque ele faz um por ano), Scoop – o Grande Furo. Que tem seus altos e baixos e, de fato, não é um grande Allen. Mas, mesmo assim, um Allen menor é sempre infinitamente melhor que o rotineiro que se vê nas telas. Mas é claro que dele se espera sempre algo mais.

Da Itália, de significativo, veio o belo Novo Mundo, de Emanuelle Crialese, uma reflexão sobre a imigração no mundo moderno tomando como modelo as grandes levas migratórias do início do século 20. Não é nunca banal, e, apesar de dialogar no início com o neo-realismo, toma logo partido de uma linguagem própria e contemporânea. Não vai ao passado para nele se comprazer com a nostalgia, mas para melhor compreender (e criticar) o presente. É pouco ainda, pois da Itália também se espera sempre mais. Assim como da Grã-Bretanha, presente por aqui com dois bons títulos – A Rainha, de Stephen Frears, e Ventos da Liberdade, de Ken Loach.

Da América Latina, em ano fraco, tivemos, de notável, o mexicano O Violino, de Francisco Vargas, e O Guardião, do argentino Rodrigo Moreno. No plano cultural, o tal intercâmbio com os países “hermanos” ainda é letra morta.

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