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Retrato na parede

Luiz Zanin Oricchio

15 de julho de 2008 | 09h38

Os flamenguistas tremeram na base quando Joel Santana saiu para treinar a seleção da África do Sul. Natural, pois o técnico havia comandado a fantástica recuperação do Mengo no Brasileiro do ano passado. E, quando Caio Jr. foi indicado para o lugar de Joel, os flamenguistas tremeram mais uma vez. Afinal, o rapaz gentil, de óculos de grife, não se parece em nada com o protótipo do ex-jogador, durão e camarada, capaz de dialogar com os mimados boleiros de hoje. E não é que Caio Jr. deu certo e seu time se tornou o mais empolgante deste campeonato? Por isso, os mesmos flamenguistas que torciam o nariz na chegada de Caio Jr. temem agora perdê-lo para o futebol árabe, como já se anunciou.

O fato é que, por algum motivo, esse time do Flamengo, que terminou o ano passado vencendo, começa este campeonato ganhando e jogando bonito – quer dizer, jogando bem. Se isso tem a ver com o dedo de Caio Jr. não sei, mas é provável. Afinal, se eu e outros comentaristas amigos passamos a vida a relativizar a importância desses grão-senhores do futebol que são os treinadores, temos também a obrigação de reconhecer quando um deles vai bem e cumpre sua obrigação. Isto é, quando monta um time que vence e apresenta um futebol consistente.

Quem vê hoje o Flamengo jogar sabe que está diante de um time de futebol, coeso e bem articulado. Fluente. A dúvida é se continuará nesse ritmo, coisa que ninguém, em sã consciência, pode garantir. O futebol brasileiro é a atividade mais instável do mundo. Pior que bolsa de valores em tempo de especulação. Havia no horizonte a saída de Caio Jr., que acabou por não se concretizar. E há o famoso desmanche, que sempre ronda qualquer time brasileiro até que se feche a famosa janela européia de contratações. Até lá, nenhum time e nenhuma torcida podem se sentir seguros. Mas que o Mengão disparou bonito na frente, lá isso é inegável.

De certa forma, o Flamengo tem feito, nesse campeonato, tudo aquilo que se esperava do Palmeiras. No entanto, as coisas parecem ainda meio emperradas pelos lados agora afluentes do Parque Antártica. Depois do bom começo de ano, com a conquista do Campeonato Paulista, o time de Luxemburgo tem oscilado mais do que devia. Foi o que se viu no clássico de domingo contra o São Paulo. Eu francamente esperava um jogo mais equilibrado. Mas o São Paulo dominou quase o tempo todo. Poderia ter acabado a etapa inicial vencendo por dois ou três gols de diferença. Depois o Palmeiras equilibrou e até chegou a descontar. Mas quem viu a partida sabe que não poderia haver outro vencedor que não o São Paulo. O próprio Luxa, que não é disso, reconheceu a superioridade do adversário.

O que está acontecendo com um e com outro? Bem, o São Paulo, pelo menos nesse jogo, parecia um time empenhado em se firmar. Sólido do ponto de vista tático, mostrou também disposição bem maior que a do adversário. Marcou bem e saiu jogando com velocidade. Não fosse a má pontaria de Dagoberto e Hugo, o desastre palmeirense poderia ter sido completo.

Já o Palmeiras, que de fato foi bem marcado, também mostrou certa apatia. Valdivia não foi visto no jogo e, sem ele, o meio-campo do Palmeiras perde muito em criatividade. Todos negam, mas algumas cabeças parecem estar distantes, no além-mar, para falar como nossos irmãos portugueses. Luxemburgo adotou o discurso de que tudo isso é normal no futebol globalizado. Certo. Mas é difícil para o boleiro manter o foco quando pensa que em pouco tempo estará longe e que seu clube atual será apenas “um retrato na parede”, e nada mais, como diz um certo poema de Carlos Drummond de Andrade.

(Coluna Boleiros, 15/7/08)

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