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Repare Bem

Luiz Zanin Oricchio

24 de agosto de 2013 | 12h14

Uma obra – também – pode ser apreciada pelos efeitos que produz. Talvez esse seja o critério definitivo, se é que existem critérios e, mais ainda, definitivos. De qualquer forma, se não é um exercício refinado de estética, como a sua própria diretora está disposta a admitir, Repare Bem, de Maria de Medeiros, foi o filme que mais emocionou o público durante o Festival de Gramado. E emocionou também a plateia que acompanhou o debate no dia seguinte.

A “estrela” era nem tanto a diretora, mas a entrevistada, Denise Crispim que, escavando no fundo do seu baú de memórias, nos fez reviver os piores anos da ditadura brasileira. Sua capacidade narrativa notável e a emoção com que recorda a tortura, o exílio, a perda do marido (Eduardo Leite, o “Bacuri”, morto num dos porões da ditadura) construíram um elo sólido entre a ex-presa política e seu público. Uma empatia pouco comum.

E essa ligação, conseguida através de uma fala de rara franqueza, é mérito não só da narradora, mas da cineasta, que conseguiu estabelecer a relação de confiança necessária para que se narrassem coisas tão íntimas, e terríveis. Méritos, pois, para Maria de Medeiros e a simplicidade e despojamento de ego com que se coloca diante de um drama maior.

Não se pense, porém, que toda a força do filme vem apenas do depoimento de Denise. O que diz sua filha Eduarda, hoje vivendo na Holanda, também é de arrepiar. Bem como a descrição feita por Denise de sua própria família, pai e mãe envolvidos de maneira visceral na luta contra o regime. Ao evocar, em imagens, o belíssimo filme de Ettore Scola, Um Dia Muito Particular, Maria de Medeiros faz o elo entre o seu cinema e o de um diretor que também colocou a sua arte a serviço das ideias em que acredita. A razão do uso dessas imagens de ficção, com Sofia Loren e Marcello Mastroianni, só se revela ao final de Repare Bem. E essa revelação não deixa de ser uma epifania a mais em filme tão duro quanto indispensável.

 

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